Quando o que Resta São as Memórias

Começou a chover quando cruzava a cidade à ida para casa.
Não tinha chapéu-de-chuva, nem anoraque. Dei uma corrida pequena até ao toldo de uma loja. A asma não me deixava correr mais. E a chuva… Já não tinha idade para enfrentar a chuva.
Encostei-me à montra da loja e acendi um cigarro.
Lá de dentro da loja saiu um senhor que, com a mão, fez sinal para me desencostar do vidro. E eu desencostei-me e sorri-lhe, um pequeno sorriso de desculpas.
Ao contrário de mim, a cidade estava preparada para a chuva. Na rua passavam homens e mulheres de chapéu na mão. Apressados. Havia alguns coloridos, de motivos alegres e bem dispostos mas, a maioria era preto e cinzento.
Os carros fizeram logo uma fila lenta, de faróis vermelhos e amarelos que reflectiam na gotas da chuva e tornavam o cenário da cidade irreal.
Um casal de namorados passava, de mãos dadas, debaixo da chuva, sem chapéu nem impermeável. Estavam molhados, mas eram adolescentes, irreverentes, e não ligavam a pormenores sem importância como a chuva. Tinham o sangue quente e a pele de gortex.
Enquanto fumava o cigarro e os via passar, lembrei-me de quando eu também não tinha medo da chuva. De quando era novo e jogava à bola na rua, debaixo de fortes chuvadas, e a minha mãe vinha à janela da cozinha gritar por mim, gritar o meu nome em diminutivo, zangada, a prometer-me uma valente tareia porque a chuva me fazia mal e eu ainda ia ficar doente, Raios partam o rapaz, dizia.
Lembrei-me, também, de um beijo trocado debaixo de um forte temporal, e que terminou em ida para casa dela, tomar banho e enfiarmo-nos debaixo dos cobertores o fim-de-semana inteiro, só pondo a cabeça de fora para fumar um ou outro cigarro e comer o que havia lá por casa. Fruta, principalmente. E não precisávamos de mais.
Acabei o cigarro, deixei-o cair no chão e fiquei a vê-lo ir na correnteza de um pequeno riacho que o levou até um bueiro à beira da estrada.
E pensei que era o que me restava, agora. Memórias. Eram as memórias que eram a minha vida, porque a minha vida, hoje, já não tinha nada que merecesse ser lembrado amanhã. Só mesmo as memórias. E nessa altura senti-me o velho que na realidade era.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/08]

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