Eu, Virado do Avesso

Acordei mal disposto e cheio de dores de cabeça.
Levantei-me e comi um bocado de pão seco, que me custou a mastigar e engolir, mas não queria o estômago vazio para tomar um Brufen. Fui à janela da cozinha e olhei para a rua. O tempo estava cinzento e a chover. Fazia frio. Tremi e regressei à cama.
Fiquei deitado a olhar para o tecto. Tentando adormecer. À espera que o comprimido fizesse efeito. Mas nem uma coisa nem outra. Estava completamente desperto. E as dores na cabeça pareciam mais intensas. E estava com comichão numa perna. Cocei.
Senti um vómito. Mas ficou-se por ali. Pelo seu início. A má disposição continuava. Mas fui aguentando.
De repente, levantei-me a correr para a casa-de-banho, levantei o tampo da sanita e enfiei lá a cabeça. Primeiro foram só os vómitos. Umas convulsões. Havia assim uns arranques do corpo, como se fosse arrotar, ou deitar alguma coisa fora, mas sem o fazer. Abria a boca muito, como se eu próprio fosse sair por lá, mas não saía nada, só uns fiozinhos de expectoração. De um amarelo vivo. Espumoso.
Fiquei por lá um bocado. Até que comecei a vomitar. Não percebi o que era que estava a deitar fora. Mas saía assim de jorro. E depois fiquei por ali mais uns tempos, com vómitos e a deitar expectoração fora.
Senti-me cansado. Mas percebi que já tinha vomitado tudo. Lavei a boca. Os dentes. Fui buscar uma manta e sentar-me no sofá. A descansar enquanto olhava lá para fora, para a chuva que caía.
Depois voltaram os vómitos. Uma enorme vontade de vomitar, outra vez. A cabeça parecia querer explodir. E não tive tempo de correr para a casa-de-banho. Comecei com convulsões e começou a sair alguma coisa de dentro de mim. Não era expectoração. Não era nada que tivesse comido. Era uma coisa enorme. Grande. Sólida. Viscosa. Parecia um corpo. Era mesmo gigante. A minha boca abria-se como eu não julgava possível. Uma enorme porta. E de cá de dentro, percebi depois, comecei a sair, eu próprio, de dentro de mim. Como se estivesse a virar-me ao contrário. O que estava dentro começou a sair para fora e, no fim, o que estava de fora começou a entrar para dentro do que já tinha saído de dentro de mim e que agora era o eu de fora. Assustado, percebi que o eu que existia era agora outro eu, como se fosse negativo de mim e então…
E então foi nesse momento que acordei, sentado no sofá. Transpirado. Cheio de fome. Já não me doía a cabeça nem me sentia mal disposto. Mas estava com uma fome diabólica. E não tinha mais nada em casa que pão duro e manteiga. Estava mesmo com fome. E fui fazer umas torradas. Ainda pensei em fazer um chá. Mas não tinha nada para fazer chá. Nem pacotes, nem ervas, nem fruta. Acabei por comer só as torradas. E fui para a varanda comê-las. Já não sentia frio. Só fome.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/03]

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