Da Importância dos Rituais

Via-a passar todos os dias. Era sempre por volta das dez da manhã. A essa hora eu costumava ir beber café à cozinha e ia para a janela acompanhar o café com um cigarro. E via-a passar. Devagarinho, agarrada à bengala, com a mala, sempre com a mala na outra mão, e um saco de plástico com pedaços de pão duro que ia guardando para depois lá ir à praça alimentar os pombos.
No início achava aquilo tudo um pouco repugnante. Nunca gostei de pombos. Sempre achei que eram uma espécie de ratos com asas, prontos a espalhar doenças por todo o lado, e não percebia que relação é que alguém podia encetar com aqueles bichos. Mas achava piada vê-la, todos os dias, fizesse sol ou chuva, calor ou frio, naquele seu andar lento mas decidido, sempre vestida de preto, fosse de Inverno ou de Verão, mas de cabelo castanho clarinho que pintava todos os meses, sempre muito bem penteado e que a laca ajudava a colocar no sítio, a dirigir-se para a praça e alimentar os pombos.
Mais tarde percebi a importância daquele ritual. Era uma obrigação. O facto de ter de alimentar os pombos, obrigava-a a levantar-se todos os dias da cama. Agora que as visitas dos filhos e de outros familiares era tão espaçado no tempo, era bom ter coisas para fazer que a mantivessem atenta, desperta e ocupada, e não passasse os dias inteiros agarrada à televisão a ver aqueles programas irritantes onde havia sempre personagens aos berros e musiquinhas de chacha de que nunca gostou.
Isto, ouvi dizer. Eu nunca a conheci pessoalmente. Foi no dia em que não a vi passar lá em baixo, agarrada à sua bengala, e que fui à pastelaria da rua, é que percebi que tinha morrido. Nesse dia fiquei umas boas horas na pastelaria a beber cafés e a comer filhoses (e não, não estávamos em Dezembro, mas na pastelaria da minha rua há filhoses durante quase todo o ano) e a ouvir as pessoas falarem dela. Foi aí que percebi tudo o que vim a saber da sua vida e da importância que alimentar os pombos tinha para ela. Era bom sentir-se útil. Foi por isso que nunca quis ir para um lar. Gostava de ir ao supermercado ver as novidades e fazer as suas parcas compras que podia carregar no seu caminhar lento mas decidido. Decidir o que comer ao almoço. Ao jantar, raramente comia. Um chazinho, umas torradas… E passear ali pela rua, visitar todas as lojas, cumprimentar todas as pessoas que lá trabalhavam e alimentar os pombos.
Desde esse dia passei a tomar o café mais cedo para poder ir, às dez da manhã, dar pão duro aos pombos da praça. Continuo a não gostar deles. Mas gosto da ideia de preservar a memória de alguém que me era muito especial à distância e que, afinal, nunca cheguei a conhecer.

[escrito directamente no facebook 2018/01/29]

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