Que Raio É a Felicidade?

Que o dinheiro não traz felicidade, é um axioma que sai facilmente da boca de quem não tem problemas financeiros.
Que não traz felicidade mas ajuda a encontrá-la é o que responde quem não tem dinheiro.
Estávamos sentados na mesa da cozinha, frente a frente, e ela olhava para mim, à espera.
Eu olhava para o prato com ovos mexidos que tinha à frente e não conseguia prová-los.
Ela bufou uma certa impaciência. Eu olhei para ela e perguntei Mas o que é que estes ovos mexidos têm a ver com a felicidade?, e ela, respondendo pausadamente, articulando muito bem cada sílaba de cada palavra disse Eu só perguntei se eras feliz.
Mas estava a falar do quê? Se sou feliz, quando? ou como?
A felicidade era um termo muito usado por ela, servia para tudo, para justificar ou para questionar. Se eu era feliz?
Quando me estou a vir em ti, sim, sou feliz. Aqueles breves segundos são de uma enorme felicidade. Quando chego a meio do mês e me vejo sem dinheiro, não, não consigo encontrar a felicidade. Era o que querias ouvir?
Ela continuou a olhar para mim por alguns segundos que pareceram horas, depois levantou-se, agarrou na mala, pendurou-a ao ombro e disse Custava alguma coisa gostares da omeleta?
Ah, afinal era uma omeleta! pensei eu, cá para mim, mas sem sonorizar o pensamento. Não queria mais chatices.
Ela acabou por virar costas e sair de casa. Bateu com a porta da rua.
Fiquei sentado na mesa da cozinha a olhar para a omeleta que parecia ovos mexidos. E acabei por provar. Levantei-me e fui buscar um pouco de sal e pimenta e um copo de vinho. E acabei com a omeleta.
Afinal nem estava assim muito mal. Não percebi é o que é que estes ovos tinham a ver com a felicidade dela, ou minha. Nem porque é que se foi embora assim, zangada.
Acendi um cigarro e deixei-me estar sentado na mesa a fumar. Mandava o fumo para cima. Fiz umas argolas de fumo e via-as a flutuar até ao tecto. Mas desfaziam-se antes de lá chegar. Estava a tentar perceber se era feliz ou não.
O telemóvel acusou a chegada de uma mensagem. Era dela. E dizia Tens sempre de falar de dinheiro. Não podemos ser felizes assim.
Ela tinha razão. Não era feliz assim.
E pensei que tinha de lhe telefonar e pedir desculpas. E sim, queria ser feliz com ela. Para ela.
Mas antes de lhe telefonar tinha que ir assaltar o banco aqui da rua. É hora de almoço, deve ser boa hora.
Sim, queria ser feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/19]

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