Não, Não Estou Doente!

Emagreci bastante nos últimos tempos. Perdi um pouco da barriga. Os olhos ficaram um pouco encovados. A cara chupada, com os ossos um pouco salientes. As calças caiem-me pelo rabo abaixo, mesmo com o furo a mais que fiz no cinto.
Mas não estou doente. Acho.
Não sou muito de ir a médicos. Não tenho nada contra eles. Mas evito-os. Tenho aquela ideia de que acabam sempre por encontrar o que não devem. Vamos lá por uma coisa, e acabamos de sair de lá com outra. Mas não tenho medo deles. Só lá vou mesmo quando já não há mais nada a fazer.
Normalmente, as minhas mazelas acabam por se resolver por elas próprias e um ou outro comprimido, apanhado numa conversa aqui ou ali, ou a ver o Dr. House.
No últimos tempos também tenho tido mais cuidado com a comida. Como de tudo, mas menos. E mais em casa, ou seja, menos fritos. Bebo menos cerveja. Mais vinho. Muita fruta. Passeio muito a pé, principalmente junto ao rio, galopando as suas margens, para cima e para baixo. Quando chove, obriga-me a correr um pouco, pelo menos até um abrigo próximo. Deixei de fumar. Não tenho chocolates cá por casa.
Por isso, estou um bocado magro, mas não estou doente.
Ela, quando me vê, a primeira coisa que me pergunta é Estás doente? Não é Olá, Bom-dia, Estás bom?, Como Vais? Queres ir beber um café? Um gin? Uma imperial? Queres ir foder?, não, a primeira frase que me dirige é Estás doente?
E esteja doente ou não, naquele preciso momento adoeço, fico fora de mim e só me apetece estalar-lhe a mão na cara. Não que eu não compreenda a preocupação das pessoas, especialmente dela, pelos outros, em especial por mim. Mas é aquela fobia de procurar doenças, não para as curar, não é médica, mas para satisfazer qualquer paranóia mórbida que não consegue largar.
Claro que não deseja que eu esteja doente. Mas se eu estiver, e ela não, significa que é uma sobrevivente, que consegue ultrapassar isto e aquilo, resistir à suas muitas mazelas, que são sempre terríveis e muitas vezes terminais, e sobreviver às pessoas que conhece. Não por mal às pessoas, mas por salvação própria.
Não, não estou doente!, acabo por lhe mandar, assim de passagem, sem parar ao pé dela nem a cumprimentar, sem sequer lhe dirigir o olhar. Sigo em frente, sigo o meu caminho, sem me voltar para trás, mas sentindo, nas minhas costas, ela lá parada, ao fundo, a olhar para mim e sem compreender.
Se ele não está doente, porque é que está tão magro? porque é que não falou comigo? já não gosta de mim? será que estou com mau aspecto? será que pareço doente? estou doente?

[escrito directamente no facebook em 2018/01/16]

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