Não És Tu, Sou Eu

Acordei ansioso.
Percebi que o dia se estava a preparar para me dar cabo da vida. E não me enganei.
Mal cheguei ao trabalho fui chamado à gerência. Que gostavam muito do meu trabalho, que era mesmo uma das pessoas mais qualificadas que por ali andava, que sabia fazer, quando fazer e o que fazer. Mas precisavam de controlar despesas. E a maneira mais rápida e eficiente era mandar embora alguns colaboradores. Colaboradores, não empregados. Não era nada de pessoal comigo. Era mesmo um problema deles. Não és tu, sou eu. Downsizing, percebes?
E tiveram de procurar razões para ser uns e não outros. Eu era bom, e eficiente, mas era rebelde, chato, insatisfeito, sempre de mau feitio e a refilar com tudo. E já estava a entrar numa idade avançada. É preciso dar lugar aos novos, aos jovens turcos. E era um alivio verem-se livres de mim.
Final de contrato. Sem direito a indemnização. Arranjei-a bonita. E agora? O que é que iria fazer, agora? Com esta idade?
E podia ir embora. Já não valia a pena fazer o que tinha planeado para fazer. Podia ir tratar da minha vida.
Percebi que era um cancro. Que estava a ser arrancado antes de espalhar metástases por todo o lado.
E percebi que não importava se eras bom, quanto eras bom, se não agradavas a quem tinhas de agradar. No fundo, mesmo na lógica liberal não se abandonam os preceitos da célula. Quem está em cima manda em quem está em baixo. E o respeitinho é uma coisa muito bonita.
Peguei nas minhas poucas coisas e fui embora.
Entrei num snack-bar. Sentei-me ao balcão e pedi uma cerveja. E a manhã foi passando na companhia das cervejas. Ao almoço comi uma sopa e entrei no vinho. A meio da tarde comi um rissol. Era de noite quando pedi um cachorro, daqueles à antiga, duas salsichas Nobre abertas ao meio e fritas na frigideira e colocadas numa carcaça previamente torrada e barrada com um pouco de manteiga. Depois espremi lá para dentro um pouco de mostarda. Acho que continuei na companhia do vinho. Depois bebi um café e uma Macieira. A partir daí, as coisas estão envoltas numa nebulosa.
Acordei na casa-de-banho do snack-bar, caído entre a retrete e a parede. A casa-de-banho estava imunda e acho que eu também. Reparei que tinha vomitado sobre mim. Tentei levantar-me, escorreguei no vomitado e voltei a cair. Quando consegui sair, fiz toda a distância até à porta da rua quase a correr para manter o equilíbrio e não voltar a cair.
Cheguei à rua e vi que a noite tinha caído. O ar fresco despertou-me um pouco.
Cheirava mal. Olhei para mim, de cima a baixo, e vi que estava molhado e sujo. Faltava-me uma sapatilha. Não tinha comigo as coisas que tinha… Que coisas? Já não me lembrava, mas sei que tinha umas coisas.
Não sabia o que fazer. Não sabia para onde ir. Olhei à volta para perceber onde estava e não reconhecia nada.
E, de repente, lembrei-me que tinha sido dispensado do trabalho. Caiu-me um enorme peso em cima. As pernas fraquejaram. Começou a faltar-me o ar. Fiquei com taquicárdia e pensei que o coração me ia saltar peito fora. Comecei a morder os lábios e a arrancar as peles com os dentes e a abrir e fechar as mãos. Os dedos estalavam. Pus-me a atravessar a estrada e, então, só vi um enorme clarão…

…agora estou aqui em cima a olhar para mim, lá em baixo. Há gente à minha volta. Há gente a chorar. Eu estou calmo, tranquilo. Mas penso É por mim que estão a chorar? Agora? Agora que já não estou lá? É por mim?

[escrito directamente no facebook em 2018/01/17]

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