Como É que Chegámos Aqui?

Ela mandou-me um estalo. Com força. Desequilibrei-me. Mas aguentei.
Tínhamos estado a discutir. Coisa normal nestes últimos tempos. Qualquer coisa servia para nos agredirmos. Para nos odiarmos. Para nos fazermos mal.
Tínhamos estado a discutir. E eu mandei-a à merda. E ela bateu-me com a mão na cara. Um estalo dado com força. Parecia uma cena de um filme francês. Desequilibrei-me momentaneamente, levantei a mão e estive quase quase a responder com um estalo, também. Mas não o fiz.
Virei costas, agarrei no casaco e saí de casa.
Fui dar uma volta até às margens do rio.
Estava frio. Tinha estado a chover, mas depois saiu, lá detrás das nuvens, um solzinho muito amarelo que não aquecia nada, mas trazia luz e fazia brilhar a água do rio.
Sentei-me num banco daqueles públicos, de madeira, com ripas, a olhar o rio a correr lá em baixo. Acendi um cigarro. Reparei que o banco estava molhado. Ainda havia gotas da chuva agarradas à madeira. Mas não sentia o rabo molhado.
O cigarro estava a acalmar-me.
Não sabia como lidar com aquela situação.
Mas a maneira mais fácil era sair dela. Acabar de vez. Aquilo já era doentio. As discussões eram diárias. O sexo perdia-se lá para trás, no tempo. A intimidade já não existia. As novas conversas terminavam sempre em discussão. E, ultimamente, ela a dar-me um estalo. E estava a aprimorar o gesto. Cada vez me doía mais.
Era a saída mais lógica, mas não estava preparado para ela. Não queria deitar a toalha ao chão. Admitir mais um fracasso. Achava que ainda havia salvação.
Achava mesmo? Estava convencido disso?
O telemóvel tocou. Olhei-o. Era ela. Não atendi.
O cigarro terminou e acendi outro. Dar cabo dos pulmões libertava-me a cabeça.
Ouvi o sinal de mensagem. Abri-a. Era dela. A chamar-me nomes por não ter atendido o telefone. A refilar pela discussão. A mandar-me à merda. E, no fim, a pedir desculpa por tudo e que ainda gostava de mim.
Como raio é que chegámos aqui?
Somos todos tão inteligentes e cultos e urbanos e adultos e, de repente, nas relações, retrocedemos à infância e não passamos de umas crianças mimadas.
Fiquei ali sentado no banco a fumar o cigarro e a olhar a água do rio a passar.
Começou a chover. Poucochinho, mas a chover.
Fiquei ainda um bocado sob a chuva e depois resolvi ir embora. Mas não fui para casa.
Pus-me a pensar qual dos meus amigos tinha o sofá mais fixe. E qual deles tinha paciência para me aturar.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/13]

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