A Terra Gira a Grande Velocidade

Estava caído ali, junto à Fonte Luminosa. A Terra pôs-se a girar muito depressa no seu eixo, a correr à volta do sol e o chão fugiu-me debaixo dos pés. Caí. E não consegui levantar-me.
Tive sorte. Podia ter caído dentro da fonte. Podia ter morrido afogado. Mas tombei na laje. A boca bateu no lancil e parti dois dentes. Vi-os sair disparados da boca. Na altura nem percebi o que era. Depois reparei nos fios de sangue que me escorriam da boca.
Virei-me sobre mim próprio e olhei o sol frio da manhã. Fechei os olhos. Tentei erguer-me, mas todo eu era peso.
Passaram dois miúdos adolescentes, com mochilas da escola, na galhofa, e ao cruzarem-se comigo apontaram e desataram a rir. Já não há respeito pelos mais velhos, pensei. Mas depois reparei para onde é que tinham apontado. Tinha-me mijado. Mas não me lembrava de isso ter acontecido.
Estava uma lástima.
Tentei rebolar outra vez, sobre mim próprio, para me erguer, mas não tinha força. E então desatei a rir. A rir de mim. Da minha condição. Era um palhaço. Sem dignidade. De rasto perante os outros. Ainda não era hora de almoço e já estava bêbado.
E porque é que bebo? Nem sei…
Arrastei-me ao longo das lajes da Fonte Luminosa até às escadas da Caixa. Um miúdo que vinha a andar de skate, parou ao pé de mim e deu-me uma mão. Ajudou-me a levantar e carregou comigo até às escadas da Caixa Geral de Depósitos, onde ainda estou.
A velocidade da Terra começou a diminuir. Já consigo focar. Mais ou menos.
Vejo passar as pessoas nas suas vidinhas muito importantes e nem olham para mim. Elas querem olhar, há algo dentro delas que as quer fazer olhar e sentirem-se bem por não serem elas ali, mas o pudor impede-as de olhar. Ignoram-me. Tornei-me invisível. Desapareci.
Também não quero saber delas. De nenhuma delas. Nem dessas nem das outras. Ainda bem que me deixam em paz. Antes isso que as lengalengas do costume. Antes ignorarem-me que as suas preces puritanas e falsas.
Sinto-me mal disposto. Precisava de um copo. Outro.
Mas já não tenho dinheiro. E ainda não consigo pedir na rua. Sei que esse dia vai chegar. Mas ainda não será hoje. Hoje só consigo pedir um cigarro.
Aquela miúda vem a fumar… Olha, se faz favor, arranjas-me um cigarro?… Simpática. E bonita. Vai destruir muitos corações. O meu já não. Mas uns que ainda funcionem.
Está a saber-me bem, este cigarro.
Mas estou a ficar tonto. Devo estar fraco. Acho que ainda não comi nada hoje. O cigarro está a deixar-me tonto, mas não o posso deitar fora.
Bebia outro copo… Porque é que bebo? Porque sim… A culpa é minha, claro. Mas há culpas, nisto? Claro que sim. E a culpa é minha. Se aqui estou foi porque para aqui vim.
Estou mal-disposto. Acho que vou vomitar… Não consigo aguentar… Vou vomitar…
…tenho de ir mais para aquele lado que as escadas daqui estão já todas vomitadas. Ainda vem aí alguém para me chatear.
Tenho este restinho de cigarro para acabar. Já não estou tonto.
Se eu me conseguir levantar, posso ir beber mais um copo para ganhar coragem e ir almoçar… Talvez me fiem um copo. Eu venho cá pagar amanhã.
Vou tentar mais daqui a um bocado. Antes, preciso de descansar um pouco.
E este sangue? Ah… é meu!…
E os dentes? Onde é que ficaram os dentes?… Os meus dentes?… Não os vejo…
Mas eles não me vão deixar entrar assim, todo mijado, no bar… Mas posso ficar na esplanada…
Mas antes vou descansar um pouco. Estou cansado. Estou muito cansado.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/11]

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