Um Bombay Tónico com Limão Espremido

Abri as cortinas e deparei-me com o sol lá pendurado em cima. Era suposto chover. As pessoas queriam chuva. As colheitas e as barragens precisavam de chuva. A meteorologia prometia chuva. Afinal, veio sol.
Boa! Precisava de estender roupa. Não tenho máquina de secar e o estendal é curto. E para não ter de passar a roupa a ferro, tenho de a estender direita e esticada no estendal. É uma ciência.
Quando fui abrir a porta da máquina de lavar saiu lá de dentro um cheiro insuportável a bafio e humidade. A roupa estava lá há quatro dias, à espera que parasse de chover. Parou hoje. E tenho de lavar a roupa outra vez.
Voltei a colocar lá dentro outra bola de detergente e programei a lavagem para sessenta minutos, imaginando ser suficiente para tirar aquele cheiro insuportável.
Enquanto esperava pela lavagem, lavei e descasquei uma manga e comi-a. Depois tomei um duche. Vesti-me e tomei um Voltaren para as dores com que ando na perna.
A máquina ainda estava no programa.
Fiz a cama. Limpei a cozinha. Sentei-me na mesa da cozinha e esperei. Acendi um cigarro e fui acompanhando, mentalmente, o som da máquina de lavar na sua programação. A parte da centrifugação é fascinante. Estou sempre à espera que a máquina levante voo. A fumar o cigarro acabo por inalar sempre muito mais fumo. É uma resposta ao stress que me provoca.
Também olhei para a garrafa de Bombay que estava na bancada em frente, mas achei que ainda era cedo. Tinha acabado de tomar o pequeno-almoço: uma manga.
O programa acabou. Dirigi-me à máquina, abri a porta e reparei numa massa viscosa tombada na borracha da porta. Peguei-lhe, ou melhor, tentei pegar-lhe e escorreu-me pelos dedos abaixo. Era a bola de detergente que, como a máquina estava cheia de roupa e molhada, não consegui enfiá-la lá no meio, e ela acabou por cair para a porta e não lavou a roupa. O cheiro bafiento continuava lá. Que porra.
Tirei um monte de roupa para o chão, enfiei outra bola de detergente lá dentro, e voltei a enfiar a roupa que tinha retirado. E programei de novo para sessenta minutos. E ela começou naquela música que, agora, já me dava nervos. E resolvi sair de casa. Precisava de sair de casa.
Fui até ao café. Pedi uma bica mas não havia que a luz tinha faltado. Fumei um cigarro e fui dar uma volta pelo bairro.
Voltei para casa perto da hora do almoço. Pronto para pendurar a roupa.
Quando olhei para a máquina reparei que tinha umas luzes a piscar. Claro! Tinha faltado a luz e o programa abortou.
Comecei e rir que nem um tonto. Vieram-me as lágrimas aos olhos de tanto rir. Lá me acalmei e programei, de novo, a máquina, e liguei-a.
Sentei-me à mesa a pensar o que fazer para o almoço. À minha frente, na bancada, a garrafa de Bombay. E fui fazer um gin tónico com limão espremido.
A máquina de lavar fazia um barulho enervante e fui até à sala. Sentei-me no sofá. Bebi um grande golo de gin. E adormeci.
Quando acordei não ouvi o barulho da máquina de lavar. Levantei-me. Dirigi-me à cozinha e abri a porta da máquina de lavar e fui atingido por um cheiro agradável, fresco e limpo. E comecei a retirar a roupa que fui pendurando nas costas de uma cadeira. Quando olhei lá para fora, para a rua, através da janela da cozinha, vi que estava a chover. A chover!
Voltei a meter a roupa dentro da máquina. Fechei a porta e fui preparar outro gin.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/27]

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