O Sobrevivente

31 de Dezembro.
Eram sete da noite e não sabia o que fazer para o último jantar do ano. Ainda não tinha recebido pelos trabalhos que tinha feito em Dezembro e a carteira estava curta. Ela estava lá dentro no quarto, e não sabia de nada.
Pus-me a vasculhar o frigorífico e os armários das mercearias.
Juntei o que para lá encontrei e comecei a cozinhar. Cozi esparguete. Depois juntei-lhe um bocado de margarina por cima. Aqueci uma lata de champignons que acabei por misturar no esparguete. Peguei numa lata de atum, despejei o azeite, desfiei o atum para uma tigela e depois polvilhei sobre o esparguete. Distribui por lá umas azeitonas secas que tinha descoberto perdidas no frigorífico.
Tinha um bocado de pão duro, mas sem bolor. Cortei-o aos bocadinhos, torrei-o e verti-lhes uns fios de azeite que coloquei a decorar os pratos, à volta do esparguete. Ainda fiz uma pequena salada com um tomate e uma laranja que por lá encontrei na fruteira. O tomate já estava mirrado, mas estava bom.
Tinha um restinho de Borba tinto numa garrafa e dividi-o igualmente por dois copos.
Pus a mesa.
Fui ao quarto dela chamá-la.
Quando abri a porta ela chamou-me com a mão e disse-me Estavam ali quatro velhas com um cabrito ao colo, Não vamos comer cabrito, pois não? Não! respondi e sorri, pois já só me dava para sorrir. Já tinha passado a fase da preocupação e do desatino. Agora aguentava o embate.
Dei-lhe a mão e levei-a para a cozinha. Sentou-se e começou a comer. Não esperou por mim. Estava com fome.
Sentei-me e comecei também a comer.
No fim disse que tinha gostado bastante. Que eu me tinha esmerado. Não me perguntou nada. E eu também não disse nada. Sorri. Sorri-lhe. Só.
Depois fomos sentar-nos no sofá a ver um qualquer programa de fim-de-ano gravado previamente. Eram nove horas. E eu acabei por adormecer.
Fui acordado com o som do fogo de artifício. Já passava da meia-noite. Ela já não estava ali, no sofá. Fui ao quarto e confirmei que já lá estava, a dormir. Fui à janela da cozinha, mas não conseguia ver nada do fogo de artifício que acontecia atrás do prédio em frente.
Na televisão já tinham passado as imagens da entrada no novo ano e já estavam a dar filmes que já tinha visto várias vezes. Desliguei-a.
Fui para a janela da cozinha fumar um cigarro. Olhei lá para fora, para a rua. E, ao contrário dos outros dias, não havia ninguém a passar lá em baixo. A rua estada deserta. Eu estava sozinho. O mundo não tinha ninguém. Eu era o único sobrevivente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/29]

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