O Amor

…sobreviver ao Natal, esta festa cristã que a economia conseguiu pôr a render mais que qualquer outra festa e que leva inclusivamente a olhar de lado quem não sente nenhuma empatia por este lufa-lufa entre lojas, umas mais caras outras mais baratas, à procura de coisas para oferecer, tendo o cuidado de pedir o sacro-santo talão de troca porque já se sabe que quem dá dá uma coisa qualquer, comprada sem o mínimo de sentido e muito menos objectivo, e quem recebe acha que merecia outra coisa bem melhor ou mais de acordo com o estatuto género raça ou credo e a roupa não é prenda e os pares de meias e a caixa de Ferrero-Rocher que andam há anos de casa em casa sem nunca encontrarem abrigo, mas é estranho que este ano nem um Ferrero-Rocher franqueou as portas de minha casa, e que deve ter algum significado mas não quero agora pensar nisto até porque o que importa é a orgia do bacalhau com as couves e o polvo e o peru e o cabrito, quando não é borrego, e o camarão que agora é quase de graça comprado nos supermercados e já nem é preciso acordar de madrugada nem andar à tareia com alguém da fila, porque já não há fila para o comprar, regado a um qualquer vinho, este sim, caro, com um bom rótulo porque vai à mesa e é preciso impressionar, como impressionante foi ver que todas as estradas da cidade iam dar ao Shopping, a abarrotar pelas costuras com gente que se passeia, e também compra, depois de enfrentar filas de trânsito de horas, enquanto a cidade fica deserta, definhe e é palco de actividades lúdicas e populares o suficiente para trazer cá para dentro quem cá não vive porque as pessoas que habitam a zona velha devem ter o hotel pago durante estas eternas festividades que infestam esta zona de tanto barulho que não deve haver gente que resista a estas terapias de choque de alegria a todo o custo e, ainda mal refeitas desta loucura natalícia, que muitos já esqueceram o que celebra e, como já disse lá em cima no texto ostraciza quem não acredita no Pai Natal, nos unicórnios, em princesas da Disney nem príncipes de cavalo branco que os divórcios dos pais ajudaram a esquecer, ganha-se pedalada para a Passagem de Ano onde os foliões vão gastar as energias do ano passado e as do seguinte, entrando já neste novo ano em deficit, mas muito alegres e contentes que o que é preciso é esta alienação da vida, não é preciso ler, estudar, aprender, discutir, perceber, o que é necessário é competir, ser melhor, ir mais longe, ganhar e depois extravasar tudo no vómito de uma festa de Passagem de Ano como se nos preparasse para as tristezas que o novo ano nos traz mas que, ansiosamente acreditamos que seja melhor que o outro e desta é que é e é agora que a humanidade muda e que as pessoas largam o livro de cheques e o cartão de crédito e vão finalmente abraçar-se umas às outras e dar mimo e colo que é, afinal, o que todos nós andamos à procura mesmo quando estudamos a física-quântica: o amor, o raio que o parta do amor que vai… e vem…

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/12/28]

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