Esquecer as Palavras

Pus-me a olhar lá para fora, através do vidro da janela fechada e pensei que o tempo estava como eu: cinzento, frio, chuvoso e furiosamente ventoso.
Voltei para a cozinha e procurei entre os restos de pão os que não tinham bolor e coloquei alguns pedaços a torrar. Fui fazer café, mas descobri a lata vazia. Nem um vestígio de pó. Abri a porta do frigorífico e vi uma garrafa de cerveja de litro já encetada. Abri-a e levei o gargalo à boca. E cuspi, subitamente, para a pia do lava-louça. Estava morta. Totalmente morta. Sabia a urina, se é que a urina sabia assim. E pensei num chá, e sim, era o que ia fazer. Procurei um limão. Só encontrei uma laranja. Que seja. Pus água ao lume e descasquei duas lascas da casca da laranja. Nunca tinha provado chá de laranja. Há sempre uma primeira vez para tudo.
Peguei no telemóvel e telefonei para o trabalho. Avisei que estava com dores reumáticas na perna e não podia mexer-me. O meu trabalho obriga-me a estar o dia inteiro em pé a andar de um lado para o outro. Com dores na perna, não me poderia mexer e não poderia trabalhar, o melhor mesmo era ficar em casa. E fiquei. Na verdade não me doía a perna. Mas doía-me a alma. Esta semana de Natal tinha-me ferido de morte. As ausências, as faltas, as percas, tudo tinha contribuído para a morte do meu, já de si fraco, coração.
As torradas começaram a queimar e fui a correr tirá-las da torradeira. A água ferveu, saltou do púcaro e sujou o fogão.
Acabei por deitar o pão queimado fora e despejar o resto da água pelo cano do lava-loiça abaixo. Que porra de vida a minha.
Sentei-me na mesa da cozinha a pensar no que havia de fazer e olhei para uma caixa de Ferrero-Rocher que jazia lá em cima. Tinha sido a minha única prenda de Natal e dada pelo amigo secreto lá do trabalho. Abri-a e comi um chocolate. Eu nem gosto de chocolate. Quando dei por mim a caixa estava vazia e eu um pouco enjoado.
Acendi um cigarro. Levantei-me e fui abrir a janela da cozinha e pensei nas horas que ali passava a fumar e a ver as pessoas lá em baixo. Podia dar algumas estórias se eu tivesse paciência para as escrever. Não tenho.
O que é que tenho afinal?
Nada.
Não tenho nada.
Ou uma vontade de me deixar estar, ali, sem me mexer, sem pestanejar, sem coçar o nariz nem o rabo, sem precisar de me levantar para urinar, reduzir a minha existência ao estar, assim, ali, com um cigarro aceso no canto da boca e a cabeça a pensar em coisas inócuas que não fizessem doer, não pensar na falta de gente na minha vida, na falta de amigos, namoradas ou namorados, na falta de sexo, nada, nada, nada, nem sequer querer saber dos jogos do Benfica das selfies do Marcelo ou da lei de financiamento dos partidos. E de onde é que saiu esta? O que é que eu sei disto? Que mania esta de mimetizar o que sai da rádio ou da televisão. Mas acho que nem o Correio da Manhã quero ler. Não, não quero nada, nem comer, nem beber, nem foder, nem ver, nem olhar, nem cheirar, nem respirar. Não querer viver. Estar só ali assim, de cigarro na mão e ser o nada. Esquecer as palavras. Deixar de saber o sentido e significado. Perdê-las. Assim bndmsiaf neidd jhwbx…

[escrito directamente no facebook em 2017/12/26]

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