Como Esfolar um Coelho

Não gosto de coelho.
Quando era mais novo e vivia nos limites urbanos, quase que podia dizer que vivia no campo – em Leiria, aliás, os limites confundem-se -, a minha mãe tinha galinhas, patos e coelhos. Para consumo próprio, não para vender. Tínhamos ovos frescos, galinha para a cabidela, pato para o arroz, gordura para a canja e coelho para guisar.
Assisti muitas vezes à matança desta criação. Se as galinhas era o mais bizarro, pelo sangramento e o corte da cabeça – e sim, cheguei a ver galinhas a correr desvairadas sem cabeça -, o mais difícil de digerir era a morte dos coelhos.
A minha mãe agarrava o coelho pelas patas traseiras e dava-lhe uma murraça na cabeça que, invariavelmente, o matava. Depois pendurava-o, dava-lhe uns cortes na pele das patas traseiras e esfolava-o, puxando-lhe a pele toda para baixo e despindo-o pela cabeça, deixando-lhe a carne nua e crua à vista.
Anos mais tarde quando li O Meridiano de Sangue do Cormac McCarthy e vi as pormenorizadas descrições dos escalpes arrancados pelo grupo de cowboys do Juiz sem um único pêlo (ironia das ironias), pensava sempre na minha mãe a puxar a pele dos coelhos como se fosse o escalpe dos índios.
Depois fazia o coelho guisado com batatas, que o meu pai adorava. E todos lá em casa tínhamos de comer. Eu também o comia. Não sei se por assistir à morte e esfolamento dos coelhos ou mesmo pelo sabor, nunca gostei muito de coelho. Mas tinha de o fazer.
Depois da morte do meu pai, a mudança de vida a que fomos obrigados, levou a que a minha mãe deixasse de ter criação. E deixou de fazer coelho guisado e eu deixei de ser obrigado a comê-lo.
Há uns anos calhou haver coelho assado num restaurante onde fui comer e resolvi provar, numa espécie de regresso ao passado. E também não gostei. Achei a carne muito seca e sem sabor.
Hoje, quando penso nos coelhos guisados com batatas que a minha mãe fazia, é no esfolar dos coelhos por ela que na verdade penso. É uma imagem fortíssima e que requer estômago. Estômago que não tenho, nunca tive. A minha mãe tinha. Mas não deixo de o pensar
Quando agora a vejo curvada, a caminhar agarrada a uma bengala, e tento lembrá-la forte, de mangas arregaçadas a puxar a pele ao coelho, penso no que serei eu daqui por uns anos, se lá chegar. Até onde vou definhar? Até onde vou aguentar perder a minha vida? Até onde vou deixar, deixar de ser eu?
A única certeza é que continuo sem gostar de coelho.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/30]

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