Dia de Natal

Fui acordado de madrugada. Ainda era de noite. Em todo o lado o silêncio. Só cortado por aquele murmurar ao ouvido Vá, ainda temos uma meia-hora.
Sim, eu percebi. Ela agarrou-me, eu agarrei-a, e sem grandes preliminares nem grandes jogos de sedução, começamos a libertar o corpo daquela tensão dos últimos dias.
Tínhamos acabado de nos virmos, estávamos a dar o beijo de apaziguamento, quando a mais nova entrou quarto dentro a gritar que era dia de Natal, dia de presentes. E eu pensei Acabou-se o sossego.
E era verdade, acabara-se o sossego.
Ela saltou para cima da cama, para o meio de nós e só tive tempo de puxar o edredão até aos queixos e rabujar com o frio.
A mãe levantou-se e seguiu-a porta fora, mas antes fez-me sinal de que precisava de ajuda. Maldito Natal!
Levantei-me, vesti umas calças de fato-de-treino, fui à casa-de-banho urinar, lavar a cara e os dentes e lá segui para o cadafalso.
A mais pequena estava atarefada a ler os nomes nos presentes. A mãe estava na cozinha a aquecer leite para o mais velho que só apareceria mais tarde.
Quando a mãe entrou na sala, começou o ritual dos presentes. E foi nessa altura que desliguei.
Sei que estavam a abrir os presentes porque as via a abrir embrulhos e até me deram alguns a mim, mas não estava ali. Estava numa outra cama, agarrado a alguém, a ouvir a chuva a cair lá fora e a pensar como era bom estar ali. E era mesmo bom estar ali, no quentinho, e sentir a tempestade do lado de fora e pensar como é bom viver estas pequenas coisas.
E lembro-me de agarrar um presente e agradecer, mas na verdade, o que eu vi foi uma bandeja com um belo pequeno-almoço que iria partilhar e que agradecia.
Alguém tinha posto música a tocar, acho que reinava a alegria e a boa disposição ali naquela sala mas, eu, eu estava noutro sítio, num quarto, a dançar a mesma música mas abraçado a alguém e sentia-me bem enrolado assim naqueles braços.
Gostaste?, ouvi. E por momentos não percebi quem estava a falar e do quê. Até que ela se aproximou de mim, franziu a testa como se perguntasse o que é que se estava a passar e voltou a dizer Gostaste?, enquanto via, lá mais ao fundo, a mais nova à espera da minha resposta e eu disparei Sim, sim! Muito! e a mais nova riu, e a mãe dela sorriu-me, debruçou-se e deu-me um beijo na face.
E eu não consegui voltar para o quarto onde conseguia ouvir a chuva. E ainda não consegui perceber se eram memórias ou previsões. Ou tão somente um desejo.
Sei que estou de volta ao mundo real. E amanhã tenho de voltar ao trabalho. E a Passagem de Ano está à porta e nunca mais chega o sossego.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/25]

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