Aconteceu de um Momento para o Outro

Caminho devagar por entre os carros que esperam ansiosos em cima do passeio.
Empurro com alguma dificuldade o meu carrinho de supermercado pelas pedras da calçada portuguesa.
As sapatilhas rotas sentem as pedras e a falta delas. Felizmente não está a chover e não molho os pés.
Gostava de tomar um banho quente. De me lavar como deve ser. De cortar o cabelo. De fazer a barba. De vestir roupa lavada. De sentir um cheiro agradável.
Não sei há quanto tempo ando por aqui assim. Aconteceu de um momento para o outro. Num momento estava bem e no outro estava mal. Num momento tinha casa e no outro deixei de conseguir pagar a renda. Foi um abrir e fechar de olhos até chegar à rua. No início foi difícil. Mais pela vergonha. Toda a gente me conhecia. Mas deixaram de me conhecer. Toda a gente me cumprimentava, sabia quem eu era. Agora não me vêm. Aconteceu tudo muito rápido. Quando dei por mim, estava sem nada. Nem trabalho tinha. E depois, depois de tudo começar a acontecer, as coisas só tendem a piorar. Descer é fácil e rápido. Subir é quase impossível.
Esqueci a família, os amigos. É verdade que também os evito. Não quero vê-los. Não quero que me vejam. Só queria que o tempo passasse rápido e a vida passasse rápido e a morte chegasse rápido. Não tenho objectivo. Não sei porque acordo a cada dia. Nada me move. Nada me motiva. E nada é nada. Porque tento esquecer. Enterrar bem fundo na memória as coisas que podem magoar.
Agora que se aproxima o Natal elas têm tendência para subir pela cabeça acima e fazer-me recordar coisas que me fazem doer e eu não quero. Por isso bebo. Enquanto estou entorpecido não me lembro do que quero esquecer.
Nestes últimos dias tem estado frio. Muito frio. E muita humidade. Este frio húmido parece facas a espetarem-se no meu corpo. Tenho procurado vãos de escada para não ficar na rua, mas os prédios tendem a ter as portas da rua fechadas por causa dos assaltos.
Ultimamente tenho conseguido coisas boas para comer nos caixotes de lixo do McDonald’s e do Pingo Doce. Ao início faz um bocado de confusão. Depois habituamos-nos. Não me faltam as proteínas.
Hoje vi um homem sentado à entrada do Pingo Doce com um cartaz onde pedia um trabalho qualquer. Mas ninguém lia o cartaz. Uma miúda ainda lá deixou cair uma moeda ao pé do cartaz, mas foi só. Eu passei por lá e deixei-lhe um iogurte que ainda não tinha passado muito tempo fora do prazo. Ele olhou para mim e os seus olhos agradeceram.
As pessoas andam atarefadas com a noite da consoada, com os jantares de família, com os presentes para os amigos e para os entes queridos e com o enorme trabalho que isso obriga. E não têm tempo.
Eu, eu podia vender-lhes um pouco de tempo. É o que tenho para vender. É o que me resta.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/22]

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