A Vida Toda num Arroz de Pato a Cair

Hoje veio alguém limpar-me a casa. Mal entrei pela porta da rua senti o cheirinho a limpeza. A casa limpa, imaculada. No chão não se via uma bola de cotão, a mesa da cozinha não tinha nenhuma mancha de copos, o lava-louça estava a brilhar e sem louça suja nem a secar; na sala, a televisão tinha o ecrã sem dedadas nem pó, o sofá não tinha migalhas; no quarto a cama estava feita de lavado e não havia roupa por arrumar; e na casa-de-banho não havia cabelos nos ralos, o rolo de papel higiénico estava no sítio e as toalhas eram lavadas. O saco do lixo era novo e estava vazio, tinha fruta fresca na fruteira e uma terrina com arroz de pato em cima da bancada e não havia um único cinzeiro sujo em toda a casa. Podia quase dizer que era um homem feliz.
Fui para a cozinha. Abri uma garrafa de vinho branco que tinha no frigorífico para uma ocasião especial e pensei que esta era uma ocasião especial. Não me lembrava da última vez que tivera a casa neste brinquinho. Servi um copo e bebi-o de uma vez. Estava com sede e soube-me bem. Servi um segundo copo. Depois voltei a abrir o frigorífico e tirei um tomate. Cortei-o aos gomos fininhos em cima de uma tábua de plástico. Pus o tomate numa tigela e espalhei um pouco de sal grosso, um pouco de oregãos e um fio de azeite. Depois peguei numa colher grande e coloquei duas colheres de arroz de pato num prato e aqueci-o no micro-ondas. Tapei a terrina com o arroz de pato com película aderente e peguei-lhe para a colocar no frigorífico. E foi então que a terrina me escorregou das mãos e caiu no chão da cozinha.
Enquanto a terrina está a cair eu penso na casa imaculada e no prazer que me deu quando abri a porta da rua e penso, também, como em mim todo o prazer é efémero e como tenho tendência para perder as coisas boas que a vida insiste em me dar. E vi passar-me pela cabeça todas as vezes na vida que eu comi arroz de pato e o prazer que sempre me deu. E até imaginei como podia comer no chão da cozinha de tão bem lavado e cheiroso estava.
E é nessa altura que a terrina se encontra com o chão da cozinha e se estilhaça em milhares de pequenos pedaços e o arroz se espalha por todos os cantos mais esconsos da cozinha e a carne do pato cai em peso aos meus pés enquanto faz um barulho obsceno de ploff.
E eu sinto o peso do meu corpo a cair por mim abaixo e os ombros a tombarem e a vontade a fugir de mim e a pensar que tenho de ir apanhar todos os pedaços de vidro, todos o bagos de arroz, todos os fios do pato e mesmo assim a cozinha vai ficar perigosa e eu já não posso andar por ali descalço e o chão vai ficar gorduroso e eu estou cansado e não me apetece ir buscar a esfregona e o balde e o detergente e só me apetece chorar e a vida é uma merda e a mim só me acontecem coisas destas e agora vou ficar com fome, mas não com sede que vou vingar-me e beber a garrafa de branco até ao fim. E o tomate cortado em gomos fininhos.

[escrito directamente do facebook em 2017/12/21]

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