Um Cão Nunca Tem Frio

Trabalho ao Domingo. Faço uns biscates. Faço as folgas de outras pessoas. Geralmente saio tarde. E chego a casa sem vontade de cozinhar.
Hoje passei pelo Rei dos Frangos. Há arroz de pato aos Domingos. E trouxe um pouco de arroz de pato para casa.
Quando cheguei tive logo o cão em volta de mim a cheirar o saco onde vinha o arroz de pato. Fui dar-lhe um pouco de ração, senão não me deixava em paz.
Deixei-o a comer e fui tratar de mim. Coloquei um pouco de arroz num prato e enchi um copo de vinho tinto. Fui até à varanda e sentei-me lá a comer, com o prato na mão e o copo no chão. Estava um pouco de frio, mas gosto de sentir o frio. Sentei-me a olhar para a rua lá em baixo enquanto comia. A ver passar as poucas pessoas que se aventuram na rua com este frio. Sentei-me a olhar as janelas e varandas em frente a mim. Umas com luz, outras com os estores fechados até cima. Em duas ou três varandas havia gente a fumar na varanda que se pôs a olhar para mim, ali a comer ao frio.
Passado algum tempo chegou o cão. Ainda abanou o rabo e colocou o focinho nas minhas pernas, mas já estava de barriga cheia e percebeu que não ia levar nada, por isso deitou-se ali fora, ao pé de mim, e deixou-se adormecer.
Eu acabei de comer e de beber. Levei a louça para dentro e trouxe um cigarro para fumar na varanda.
No fim mandei a beata fora.
Depois chamei o cão e fomos dar um passeio.
Passeámos junto ao rio. Estava frio. Mas soube bem. Ele nunca tem frio. Corre de um lado para o outro. Mete o nariz em todo o lado, cheira tudo, e alça a perna para mijar em quase todo o lado.
Não nos cruzámos com ninguém. E acabámos por regressar a casa.
Em casa sentei-me no sofá a ler um livro. O cão deitou-se aos meus pés.
Os Domingos são uns dias assim, chochos, poucochinhos e um pouco tristes. São um bom reflexo da época.
Em casa não tenho nenhum elemento alusivo ao Natal. Mas a verdade é que nas casas em frente, havia duas ou três janelas onde se viam luzes da Natal no interior.
Queria concentrar-me no livro mas estava a ser difícil. Havia uma pergunta a moer-me o juízo, Onde anda o espírito de Natal?
Tirei o telemóvel do bolso das calças e olhei o ecrã. Nenhuma chamada, nenhuma mensagem. E pensei que a minha vida é sempre igual, seja lá qual for a época do ano. O cão percebeu as minhas dificuldades de concentração e levantou o focinho para mim. Olhou-me e voltou a adormecer. Eu tentei voltar a ler. Mas a tristeza do Natal não me saía da cabeça.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/17]

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