Ruído de Fundo

Era 24 de Dezembro. Véspera de Natal.
Nesta altura as famílias juntam-se à volta da mesa e partilham bacalhau cozido com couve portuguesa ou polvo ou cabrito e camarões e filhoses e coscorões e fatias douradas e arroz doce e tronco de chocolate e Bolo Rei. Uma overdose gastronómica que termina sempre com uma quantidade inacreditável de doces que as avós e as mães tentam manter na tradição. Tudo isto muito bem regado a álcool. Depois, a distribuição dos presentes. Normalmente para os mais pequenos e em grandes quantidades. E há sempre um tio mais bem disposto que se veste de Pai Natal e faz as vezes. Ainda é muito assim, com uma ou outra variação.
Neste 24 de Dezembro eu cheguei a casa com um frango assado e um pacote de batatas fritas da Matutano. Coloquei a toalha na mesa, meio frango no prato e abri o pacote das batatas e coloquei-as na mesa à frente do prato. Fui ao frigorífico buscar um frasco de maionese. Abri a torneira do pacote de vinho Capataz e enchi um copo. Sentei-me e celebrei o meu Natal. Sozinho.
Liguei a televisão para o som me fazer companhia. Não sei o que estava a transmitir. Não sei em que canal estava ligado. Era só um ruído de fundo, uma companhia, uma garantia de que não estava só no mundo.
O telemóvel tocou. Mas não me levantei. Depois tocou o sinal de mensagem. Som que se repetiu várias vezes ao longo da noite.
Depois de acabar o meio frango e de despejar três copos de Capataz, fui fazer café e fui até à varanda beber o café e fumar um cigarro.
À minha frente e ao meu lado eram só festas. Muitas casas recebiam a família e os amigos para celebrar o Natal. Ouvia-se o barulho das crianças a correr, a gritar, animadas, contentes, felizes.
Voltei para o interior. Servi-me de um whiskey e sentei-me frente à televisão. E continuei sem saber o que estava a dar e em que canal estava. A minha cabeça estava vazia. Recebia o calor do álcool e agradecia-o.
Adormeci. Ou pelo menos, acho que adormeci.
E acordei. Ou pelo menos, penso que acordei. Com sons de gritos. Vinham do andar de cima. Primeiro eram umas vozes, poucas, que gritavam. Depois era um conjunto de várias vozes em enorme discussão, gritos que se sobrepunham a outros gritos. Percebi que alguém batia em alguém. Os pés faziam um sapateado que se ouvia cá em baixo. Alguém chorava. Várias pessoas choravam. De repente, um tiro. E o silêncio.
Fui até à varanda ver se percebia alguma coisa e quando lá cheguei, o silêncio extinguiu-se.
Do apartamento em cima e dos prédios em frente e de todo o lado pessoas discutiam com pessoas e havia quem lutasse e gritavam-se nomes e diziam-se asneiras e ouviam-se tiros e fogo e lume e gente era mandada para fora pelas janelas e deitada das varandas abaixo e deflagravam incêndios em vários sítios em várias janelas de vários apartamentos e ouvia-se o som de sirenes da polícia e de bombeiros e de paramédicos mas os gritos continuavam e na rua lá em baixo empilhavam-se corpos de gente que caía ou era empurrada gente a arder gente já morta por um tiro ou uma facada ou estrangulada e via-se uma árvore de Natal a voar janela fora e cair em cima da pilha de cadáveres e livros e discos e porcelanas e roupa muita roupa e televisões e colunas de música tudo a voar pelo ar para fora das janelas e a cair tudo na rua num rodopio caótico…
Estive algum tempo assim, parado, paralisado, a olhar a morte a acontecer à minha volta. Depois entrei dentro de casa e fechei a janela da varanda. Fui buscar um copo de vinho Capataz e sentei-me no sofá, frente à televisão. Desliguei-a e fiquei ali, a olhar para o ecrã vazio a tentar deixar de ouvir o barulho que vinha lá de fora.
Queria que o Natal acabasse e tudo voltasse ao normal.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/20]

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