Odeio Adolescentes!

Abri a porta do frigorífico e vi que estava vazio. Tenho de ir às compras. Mas ando sem vontade. Os sítios estão todos sempre cheios de gente apressada, alegre, contente, a falar a torto e a direito da magnífica noite em família que estão a preparar. De repente as famílias dão-se todas bem, as pessoas amam-se todas muito e o mundo é um local feliz e cheio de amor.
Então resolvi ir jantar ao restaurante lá de baixo. É sempre bom ter um restaurante debaixo de casa. Não nos deixa ir muito longe e, se nos embebedamos, o elevador traz-nos de volta para cima.
Sentei-me ao balcão. As mesas estava dispostas ao longo do restaurante, ligadas entre si em dois grupos. Imaginei que ia haver confusão de jantar de Natal, de empresa, de anos, uma coisa dessas. Ia tentar despachar-me antes que eles chegassem. Mas não houve tempo.
Ainda não tinha atacado o queijinho fresco, já estava a entrar no restaurante uma montanha de hormonas aos saltos na forma de adolescentes. Tinha-me esquecido. O primeiro período da escola tinha terminado ontem. Hoje desceram à cidade para jantar, serem crescidos, gritarem uns com os outros, fumarem, beberem álcool e darem largas à libido. Beijos, apalpões, chupões.
A meio do bitoque já nem conseguia ouvir o som da televisão. Atrás de mim um turbilhão de excitação em forma de barulho. E pensei, Odeio adolescentes!
Mas não, não odeio adolescentes. Odeio o facto de já não ser adolescente. Odeio o facto de já não exercer aquele ritual de acasalamento dos adolescentes. Odeio já não ter aquela vontade, aquele desejo, aquela tesão, aquela vontade de foder o mundo inteiro num parque de estacionamento sem me preocupar que alguém esteja a ver. Odeio que a minha velhice me castre o desejo. Que a minha voz já não se sobreponha à deles. Odeio que o meu conhecimento não supere a inabilidade brilhante de quem ainda não sabe como fazer as coisas, mas tem uma vontade enorme de descobrir e aprender.
Na verdade, a única coisa que me irrita esta noite ao ouvir a liberdade com que se movem atrás de mim, entre todos eles, é a minha inveja. A inveja de já não ser como eles. Mesmo que as minhas memórias me alimentem. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/16]

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