A Noite de Natal É Muito Importante

Quando cheguei a casa ela estava sentada no sofá a ver a televisão. Estava a dar uma novela qualquer. O som estava muito alto. Ela já ouve mal.
Percebi que estava zangada. Não comigo em especial. Zangada com a vida. Com a vida dela.
Perguntei-lhe se tinha jantado. Respondeu que tinha comido sopa e fruta. Achei que me tinha mentido. Não havia louça para lavar nem cascas de fruta no caixote do lixo. Ainda pensei em dizer alguma coisa, mas achei melhor calar e deixá-la lá com as suas coisas.
Acabei por aquecer também um bocado de sopa. Depois fiz uma sandes de queijo e manteiga e acompanhei com um copo de vinho. Perguntei-lhe se queria e acenou assim, levemente, como quem não quer dizer nada, mantendo a sua zanga mas, ao mesmo tempo, ansiosa por que se perceba o sim sem ter de o dizer.
Ofereci-lhe um copo com dois dedos de vinho tinto. Havia uma caixa com sonhos que tinha comprado de manhã e que ela não tinha visto. Ofereci-lhe um e disse Não é a melhor combinação, mas deixei-os aqui de manhã e não lhes tocaste. Queres um? e ela aceitou e agarrou com a mão, nem esperou pelo guardanapo de papel que eu lhe estendia e o açúcar do sonho acabou por tombar no chão e eu tomei nota mentalmente para ir limpar o chão frente ao sofá mais tarde para não a incomodar agora e ela não perceber que tinha feito uma pequena asneira.
O sonho teve a capacidade de a animar. A cara dela perdeu aquele ar carrancudo e ficou mais leve e descontraído.
Eu estava a acabar a sandes de queijo, já ela tinha comido o sonho e bebido o copo de vinho tinto, quando me perguntou E o Natal? O que é que queres fazer no Natal?. O que tu quiseres para mim está bem, respondi.
Ela continuou a ver a novela.
Eu fui lavar a louça que tinha sujado.
Quando desliguei a torneira do lava-louça, ela disse A noite de Natal é importante. É muito importante.
Eu olhei para ela e não disse nada. Encostei-me ao lava-loiça e fiquei a olhar para ela. E ela continuou, Eu gosto da noite de Natal e gostaria que fosse uma noite boa. Não sabemos se não será a última.
Eu mostrei a minha impaciência, como mostro sempre que a conversa ganha estes contornos. Mas respondi, Faz o que quiseres. O que fizeres, para mim está bem, e ela continuou, Eu trato de tudo, não te preocupes. E eu disse, Está bem.
E fui para a varanda fumar um cigarro e tentar descontrair um pouca a tensão deste confronto, muito maior que a conversa trocada poderia fazer supor.
Da varanda, enquanto fumava, reparei como ela se recostava ao sofá da sala. Finalmente a cara dela estava como é normal estar. Tinha resolvido um assunto que a preocupava. Fiquei contente por ela. Mas fiquei irritado com o que o Natal faz às pessoas. E o que as obriga a fazer.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/18]

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