Vejo-os a Olhar para Mim

A parede está cheia de buracos. Fui eu que a esburaquei. Eu sei que eles estão lá. Não os consigo encontrar agora, mas eles estão lá. Passam o tempo todo lá, a olhar para mim, a ver o que eu faço, a dar fé de tudo, não sei para quê, não sei a quem possa interessar o que eu faço, mas eles estão sempre lá, a olhar para mim. Eu vejo os olhos deles a perseguir-me. Acompanham-me para todo o lado. No outro dia até os descobri a olhar para mim quando estava sentado na sanita. Aquilo deu cabo de mim. E hoje ganhei coragem e fui à procura deles. Não os encontrei.
Nem os encontro. Nunca os encontro.
Mas eles continuam lá.
Eu sei porque os vejo a mandar spray cá para baixo, para cima de mim, e isso afecta-me a respiração.
Hoje peguei no martelo e fui à procura deles na parede. Mas eles fugiram. Cada vez que me aproximava de um, ele fugia para outro lado. Agora concentraram-se todos aqui por cima. Por cima de mim. Eu estou deitado no sofá, e vejo as gotículas que saem da parede e tombam sobre a minha cabeça. Sinto dificuldade na respiração. Sinto que aquele spray que eles mandam cá para baixo está a dar cabo da minha saúde. Sinto que eles querem tirar-me daqui. Querem a casa para eles. Querem vir eles para aqui morar.
Eu já lhes gritei várias vezes que eu é que pago a renda. Que eu é que estou aqui a viver. E que gosto de viver sozinho. Quero viver sozinho. Mas eles não me largam. Sempre a espiar-me. Sempre a olhar para mim. Sempre a ver o que eu faço. O que eu como. Quem vem cá a casa. Quem são os meus amigos.
Há dias, como hoje de manhã, em que me sinto com coragem e vou à procura deles. Eles fogem, mas eu estou a perceber como é que eles se movimentam e, um dia destes, vou conseguir apanhá-los.
Mas depois há dias, como agora, em que me sinto desmoralizado. Em que percebo que eles querem levar-me à loucura e estão a consegui-lo.
Se calhar não deveria viver sozinho. Mas também não tenho coragem de trazer ninguém para este inferno.
Todos temos a nossa cruz. Esta é a minha. Tenho de aguentar os seus olhares. O descaramento. Mas depois dá-me a fúria, como agora, e eu volto a pegar no martelo e recomeço à procura deles nas paredes de casa.
Eu sei que pareço maluquinho, mas juro que não sou. Eu vejo mesmo os olhos deles a olhar para mim. Eu vejo-os. Estão ali. Ali, olhem, olhem… Ali! Olhem aqueles dois olhos a olhar para mim. A verem o que eu faço. Reparem, reparem. E vejam o spray que estão a mandar para cima de mim. Olhem, olhem… Porra! Já chega… Estou farto! Parem com esta merda!… Olhem para eles ali…

[escrito directamente no facebook em 2017/12/12]

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