Sem Brinde nem Fava

Chegámos a casa com o Bolo Rei dentro de uma caixa.
Ela foi tomar um duche rápido. Eu levei a caixa com o Bolo Rei para a cozinha e coloquei-a em cima da mesa. Sentei-me a olhar para ela. Tirei-lhe a tampa. Olhei para o Bolo Rei enfiado dentro da caixa. Tirei-o para fora e cheguei a caixa para o lado. Fiquei a apreciar o Bolo Rei.
Levantei-me e fui buscar uma garrafa de vinho do Porto que alguém me tinha dado de presente de aniversário há uns anos. Era um vinho do Porto do ano em que nasci. Abri a garrafa. Cheirei lá para dentro. Fui buscar um cálice e uma faca e voltei a sentar-me.
Verti um pouco de vinho do Porto dentro do cálice e bebi, primeiro um poucochinho, mais para cheirar e perceber o adocicado, e depois, empinei o que restava no cálice de uma vez. Não gosto de vinho do Porto. Mesmo que sejam do mesmo ano que eu.
Virei-me para o Bolo Rei e comecei a retirar as frutas cristalizadas, que não gosto, e fui colocando-as na caixa que tinha afastado para o lado.
Enchi outro cálice de Porto. Bebi-o outra vez de um gole.
Fui retirando os frutos secos do Bolo Rei e fui comendo-os.
Bebi outro cálice.
Cortei o Bolo Rei em fatias. Depois, voltei a cortar essas fatias em fatias mais pequenas. Procurava o brinde. Mas tinha medo de encontrar a fava. E voltei a cortar as fatias mais pequenas noutras ainda mais pequenas, como se fossem fatias de queijo cortadas à máquina.
Bebi outro cálice de Porto.
Não conseguia encontrar o brinde. Por sorte também não encontrava a fava. Comecei a esfarelar as fatias fininhas do Bolo Rei.
Pequei na garrafa de vinho do Porto e bebi um grande gole pelo gargalo.
Desfiz o Bolo Rei. Não havia brinde. Não havia fava. Senti-me enganado. E não gosto de Bolo Rei.
Depois levei a garrafa de vinho do Porto à boca e acabei com o que havia lá dentro.
Estava a mandar um arroto quando ela entrou na cozinha, de banho tomado, de pijama lavado, bem cheirosa, disposta a provar uma fatia de Bolo Rei.
Ficou parada à entrada a olhar admirada para mim. Eu sorri-lhe. Pequei num pedaço de fruta cristalizada e ofereci-lha.
Ela fez-me má cara. E eu disse-lhe Vê lá tu que não tinha brinde!, mas ela saiu da cozinha e ainda não voltou. Não sei que horas são. Acho que já foi há muito tempo. Acho que está zangada comigo, mas não sei porquê. Estou um pouco mal disposto. Devo ter comido alguma coisa estragada. Era bom que ela me fizesse um chá. Mas onde é que ela está? O Bolo Rei não tinha brinde. Mas também não tinha fava. Era falsificado. Estou mal disposto. Acho que me apetece vomitar. Foi do Bolo Rei, de certeza.
Onde é que ela está? Precisava de um cházinho. E ela nunca está quando é preciso. Estou mesmo mal disposto. O raio do Bolo Rei caiu-me mal. Onde é que ela está?

[escrito directamente no facebook em 2017/12/14]

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