O Meu Futuro em Dois ou Três Segundos

Fui às compras ao Continente. Aquelas compras mensais. Normalmente frequento os pequenos supermercados e as mercearias ao pé de casa para aquelas coisas diárias mas, para as grandes quantidades, detergentes e assim, vou ao Continente porque fica mais barato.
Estava então no Continente, na zona dos congelados, quando, ao pegar numa embalagem de lasanha individual, reparo numa mão que retira, mesmo ao lado, uma embalagem de cannellonis também individual.
Olhamos um para o outro, e sorrimos assim um bocado tímidos. Ela era lindíssima. Não sei o que achou de mim, mas eu achei muito dela.
E durante aqueles breves segundos em que os nossos olhares se cruzaram, e eu descobri que estava apaixonado, vi o filme todo.
Queria convidá-la para vir partilhar a minha lasanha. Mas imaginei que teria dois ou três filhos que estariam com o pai, daí os cannellonis individuais. Imaginei que na vida complicada dela, não haveria tempo nem disponibilidade para outra pessoa. Mais ainda, pensei que defeitos teria para, sendo uma senhora bastante bonita e elegante, estar sozinha. Algum defeito teria. Bipolaridade, ansiedade, depressão ou simplesmente chata e com mau hálito. Ou então era só uma viciada no trabalho que não teria tempo para se dedicar ao amor e então apanhava assim uns tipos no supermercado só para despachar as necessidades sexuais e dar cabo da libido. Também imaginei que, afinal, faria parte de um grupo internacional de contrabando de orgãos e que o que ela queria de mim era retirar-me um rim, ou outro orgão importante qualquer para vender a alguém muito rico e necessitado e que quereria contornar o processo moroso e normal das coisas. Uma vez vi na televisão um filme, que se passava no Brasil, onde um grupo de turistas americano, jovem, era raptado para prover as necessidades dos um por cento da população que pode pagar por isso.
Também me passou pela cabeça que ela era uma brasileira que queria arranjar maneira de ficar por cá e então ia comigo para a cama, engravidava e depois queria casar e ganhar a nacionalidade.
Enfim, no fim de tudo, depois daqueles dois ou três segundos em que vi a morte à minha frente, sim, porque ela era portadora de HIV e andava a transmitir a seropositividade a toda a gente com quem se cruzasse, percebi que, afinal, depois desses dois ou três segundos em que nos olhamos e sorrimos, ela virou as costas e seguiu o seu caminho sem sequer se virar para trás.
E eu fiquei triste por ela não me ter convidado para partilhar dos seus cannellonis. Acho que vou deixar de ir ao Continente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/13]

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