Era Véspera de Natal

Era 23 de Dezembro.
Era véspera da véspera de Natal.
Ela tinha tirado o dia para tratar dos preparativos do jantar de Natal, mas levantou-se à mesma hora de sempre. Eram sete da manhã. Reinava o silêncio em casa. Os miúdos estavam de férias e era normal dormirem até ao meio-dia. Ou até alguém os acordar.
Ela fez café e bebeu-o à janela da cozinha olhando o nascer do dia. Não chovia. Parecia não estar muito frio. E parecia que o céu prometia umas abertas e, provavelmente, um sol amarelo.
Deixou a chávena do café no lava-louça e foi até à casa-de-banho. Pôs a água quente a correr. Despiu-se em frente ao espelho. Mirou-se. E sorriu. Mesmo perto dos cinquenta e ainda mantinha uma bela figura. Esbelta. Magra. Com músculos. Não muitos, mas os suficientes para evitar as peles tombadas. Ainda tinha curvas. Depois colocou a mão numa mama e apalpou-se até ao sovaco. Depois apalpou a outra mama com a outra mão e, a meio, parou num determinado ponto. Voltou à mama anterior. Repetiu o processo. Depois regressou à segunda mama. E voltou a parar ali, naquele mesmo sítio. A sua cara transfigurou-se. Pareceu envelhecer dez anos. A respiração aumentou. Sentiu faltar-lhe as forças nas pernas. Agarrou-se com força à pedra do lavatório da casa-de-banho. Respirou fundo. E entrou dentro do duche.
Nesse dia demorou-se mais que o normal no banho. Ficou muito tempo lá parada, debaixo da água quente.
Quando saiu, demorou muito tempo a limpar-se. Voltou a apalpar-se no mesmo sítio. E a angústia tomou conta da sua cara.
Foi para o quarto e vestiu-se.
Na cozinha, e antes de sair, escreveu uma nota para os filhos a avisá-los de que havia comida no frigorífico que era só aquecer e que ela deveria voltar ao final da tarde e que estaria disponível no telemóvel, e colocou a nota presa com um íman, na porta do frigorífico.
Já no carro, e no pára-arranca da cidade sempre em ebulição, telefonou ao médico, seu amigo. Ela ficou de lá passar no consultório depois de almoço, que ele arranjaria maneira de a ver.
Entretanto ela foi a uma mercearia da baixa buscar um pedaço de bacalhau que ainda teria de pôr de molho esta noite. Depois passou numa cervejaria e foi buscar uns camarões e uma sapateira que tinha encomendado. Ainda antes de almoço foi a outra mercearia, de frescos, comprar couve portuguesa e acabou a almoçar no Corte Inglés, ao balcão das tapas, acompanhando com duas imperiais, mas com vontade de enfiar a boca debaixo da torneira. Estranhamente, sentia-se com apetite. Sentia-se angustiada, mas com fome. E sede. Muita sede.
Depois do almoço passou pelo consultório do médico. Quinze minutos depois de ter chegado, o médico atendeu-a. Fez-lhe alguns exames de rotina e apalpou-a. No sítio que a tinha incomodado ele também notou alguma coisa. Mas tentou desvalorizar. No entanto, disse-lhe que ia marcar um biopsia para o dia seguinte. Na véspera de Natal?, perguntou-lhe ela. Sim!, disse-lhe ele. Para resolver as coisas o quanto antes, continuou. E pela primeira vez desde que sentiu o caroço debaixo da mama, ela deixou cair uma lágrima.
Quando voltou para casa, os filhos estavam na sala. O miúdo jogava consola com os auscultadores na cabeça. A filha lia um livro. Ela disse à filha que não se sentia bem, que encomendassem uma pizza e que tirassem dinheiro da carteira dela que ela ia para a cama. Precisava de descansar. Preciso de descansar, disse.
Mais tarde, durante a noite, ela levantou-se, abriu o frigorífico e acabou com o resto da pizza que os filhos tinham deixado. E bebeu duas cervejas.
De manhã levantou-se como habitualmente. Bebeu café à janela. Tomou banho. E deixou uma nota aos filhos presa na porta do frigorífico: Já venho.
Não foi de carro. Chamou um táxi, e foi assim que foi até ao hospital. O táxi deixou-a à entrada. Ela saiu e ficou ali parada, por momentos, a olhar para a entrada do hospital. Depois respirou fundo três vezes, e entrou.
Era 24 de Dezembro. Véspera de Natal.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/15]

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