A Cama Quente

Durmo numa cama quente.
Depois de sair de casa, e depois de andar a saltar de sofá-cama em sofá-cama, nas casas dos meus amigos, e depois de perder os meus amigos, consegui arranjar um T0, mas para conseguir pagar a renda, metade de um ordenado mínimo, tive de o partilhar.
Encontrei uma brasileira que trabalha de noite e dorme de dia.
Quando ela chega a casa, de manhã, eu estou a levantar-me. Cruzamos-nos na mesa do pequeno-almoço. Às vezes ela traz-me um croissant. Já aconteceu trazer-me uma garrafa de espumante que tinha conseguido desviar no seu trabalho. Depois eu saio de casa, e ela vai dormir.
Quando eu chego ao fim-do-dia, está ela a levantar-se. Às vezes partilhamos o jantar mas, geralmente, ela não consegue comer mais que uma torrada.
É raro conseguirmos arejar a cama. Normalmente há sempre um de nós a saltar lá para dentro. Vivemos com os cheiros um do outro.
No outro dia tive um sonho erótico. Deixei marcas nos lençóis. Mas nunca me disse nada. Não sei se não percebeu, se não se quis chatear.
Não é o sistema ideal, mas tem esta vantagem de conseguir estar sozinho em casa quando estou em casa. Mas tem a desvantagem de me obrigar a sair de casa quando ela chega. Não há espaço para os dois ao mesmo tempo. Só mesmo o tempo da passagem de testemunho. Mas damos-nos bem.
Ela costuma ler os meus livros. E ouvir os meus discos.
Eu já conheci algumas brasileiras amigas dela.
A prova de fogo vai ser mesmo o Natal. Nenhum de nós vai estar a trabalhar. Vamos ter de dividir o apartamento durante duas noites e um dia. Eu desisti de ir ter com a família. E a dela está no Brasil. Comprei-lhe uma camisola da Nazaré. Espero que ela goste. Eu não estou à espera de nada. Já há muito tempo que não espero nada. Só a passagem do tempo.
Vamos comprar um bocado de cabrito assado ao Rei dos Frangos. E um pouco de camarão no Pingo Doce. Tive de lhe explicar que cá, em Portugal, os camarões comem-se assim, cozidos. Não precisam de molhos. Ela concordou. Mas quis que também comprássemos uns pãezinhos de queijo.
Eu decidi dormir no chão, em cima de umas mantas, para ela ficar na cama na noite de Natal. Mas se ela quiser partilhar a cama…
Ainda não falámos da passagem de ano. Mas nessa noite ela deve ter trabalho. Acho que vou ficar por casa a ver, na televisão, 2018 a nascer nos diferentes sítios do globo. E manter-lhe a cama quentinha para quando ela chegar, no primeiro dia de um novo ano, ter uma cama preparada para a aconchegar.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/11]

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