O Carro que Dominava a Rotunda

Estou a ver a rotunda.
Estou a ver os carros às voltas na rotunda, lá em baixo. Estou sentado aqui em cima, no monte, e vejo a rotunda lá em baixo e os carros que entram e saem. Entram e colocam-se no seu interior, pela esquerda, e saem para fora, para a direita, no momento antes de sair da rotunda. No centro da rotunda uma árvore de Natal enorme, gigante, colorida, luminosa, a piscar como os carros, com os carros, numa solidariedade colorida, numa solidariedade luminosa, com muitos vermelhos, amarelos, laranjas, verdes, azuis, mas muitos vermelhos.
À volta há várias instalações alusivas ao Natal. Decorações a acompanhar as saídas da rotunda, como se abraçassem os carros que saem, com se dissessem adeus aos carros que partem da rotunda sabe-se lá para onde, como se dissesse olá aos carros que escolhem aquela saída, aquela e não outra.
No interior da rotunda há um carro que não pára de dar voltas e mais voltas no seu interior e ainda não saiu, ainda não escolheu a sua saída. E continua nas voltas e há sempre mais uma, e o interior é seu, já mais ninguém consegue entrar na faixa mais dentro da rotunda, a faixa da esquerda, a faixa mais pequena porque mais próxima do meio, que é toda dele, desse carro que não pára de continuar a circular no meio, até que começa a sair para a faixa da direita até ir para a faixa exterior, a maior faixa da rotunda, como se fosse sair, mas não sai, e começa a ameaçar os outros carros, os que querem sair, e os carros começam a apitar, e às luzes e às cores, junta-se-lhes a sinfonia de buzinas que apitam ao carro que circula mais à direita da rotunda e não sai, e o carro começa a bater noutros carros, no início parece que por acaso, ligeiros toques, talvez um engano, um erro, um desleixe, mas logo se percebe que o carro começa à procura dos outros e parece que está numa arena e é um touro à solta e vai enfiando os cornos em tudo o que encontra e os outros carros começam a ser abalroados, são empurrados para fora da rotunda, da estrada, uns de uma forma mais violenta que outros, há carros que capotam, que vão embater noutros, há já fumo, barulho de buzinas e chiar de pneus no asfalto e o som agudo de chapa na chapa, choques violentos, um carro explode, há fogo na rotunda, uns carros tentam fugir do outro e entram para o meio e chocam com a árvore de Natal gigante, e depois deitam-na abaixo e ela cai sobre outros carros, e há gente a fugir de carros tombados, a arder, espetados uns nos outros, há gente a correr rotunda fora e o primeiro carro acelera atrás das pessoas e atropela algumas e há gente a voar sobre chapa, sobre gente, sobre carros, há sangue, e gritos, e luzes e buzinas, e gritos, muitos gritos, há gente tombada debaixo de carros, debaixo de chapa, há pedaços de gente perdida em todo o lado da rotunda e o carro continua a acelerar no asfalto e continua a chocar com outros carros e a atropelar gente até que o carro choca pela última vez num emaranhado de carros espetados uns nos outros em cadeia e que começam a arder como numa grande fogueira de festa, de um Natal nocturno depois da Missa do Galo, e o homem sai do carro e desata a correr pela rotunda, quer sair, procura uma saída mas não consegue encontrá-la porque é atingido antes por um carro desgovernado que circulava cego entre o caos da rotunda…
Estou cá em cima, no alto do monte sobre a rotunda, mas já não estou sentado, estou em pé, assombrado com o que acabei de ver, e lá em baixo, na rotunda, o caos, de carros estampados, chapa perdida por todo o lado, corpos caídos, pedaços de corpos tombados, aqui e ali, corpos fechados dentro de carros fechados, encarcerados, a árvore de Natal gigante caída, e muitas luzes e cores à solta no interior da rotunda.
E, estranhamente, e por momentos, o silêncio. O silêncio completo.
E depois, retoma, ensurdecedor, o barulho do caos e da desordem. O barulho do Natal da morte.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/08]

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