Eu Não Tenho o Dom

E chega a um ponto em que é isto. Estou aqui e ela ali. E ela diz que eu sou um banana. Um cegueta que não vê nada, não ouve nada, não percebe nada.
E eu ouço o que ela diz. Mas não queria ouvir. Queria que ela se calasse. Que fizesse silêncio. Que parasse com aquela conversa. Mas ela não consegue parar. Diz que eu não vejo porque não quero ver. Que abra os olhos.
E aquela conversa, aquelas palavras, aquela voz entra-me pela cabeça dentro a furar, a furar, a furar e quase que me perde. Eu peço para ela se calar, mas ela não entende o que lhe digo. Não percebe que me está a levar à loucura. Acha que estou parvo, que sou parvo, que não abro os olhos, nem os ouvidos e que tenho o coração mirrado. Ela acha que eu não tenho o dom. Que raio é o dom?
Foda-se!, grito em desespero. Já não sei o que mais fazer. A lógica não funciona. A argumentação esbarra na verdade. E qual verdade? Cada um tem a sua. E a sua é sempre maior que a dos outros.
Visto um casaco e saio de casa. Vou para o frio da rua, mas tudo é preferível àquela loucura que se espalha lá por casa.
Acabei por jantar debaixo daquela conversa. Enfiei a comida à pressa pelas goelas abaixo e empurrei com um copo de vinho tinto barato bebido de um só gole para tentar matar aquele discurso que não pára.
Na rua sigo para o rio. Preciso de sentir frio. Sentir frio na cara, no nariz, nas orelhas. Sentir as mãos geladas. Os pés húmidos. Sentir que eu ainda sou eu. Caminho junto ao rio. Hoje há pouca gente a correr. Mas há gente, mesmo assim.
Estou nervoso. Sinto pequenas erupções por todo o meu corpo. Sinto-me a explodir, uma vez e outra, e mais uma. Sinto que cheguei a um limite. Mas não sei como o ultrapassar. Não consigo perceber o que está para lá deste limite. Não sei como resolver isto.
Quando regresso a casa ela já está a dormir.
Encho um copo de vinho rasco retirado de uma caixa de cartão e sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Ligo a televisão. Estou a beber. A fumar. E vou vendo as notícias. Donald Trump constrói o caminho para mais uma guerra no médio-oriente. Na Assembleia da República discute-se, à exaustão, a ida ou não do Infarmed para o Porto. Que raio é isto? A quem interessa realmente isto? Sou eu que estou louco ou é o mundo todo?
E chega a um ponto em que é isto. E agora? O que faço?

[escrito directamente no facebook em 2017/12/06]

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