Beber um Copo de Vinho Branco e Partir

A tempestade Ana tinha acabado de chegar. O vento abanava os estores e o barulho incomodava. Fiquei nervoso. Fui à cozinha e abri uma garrafa de vinho branco alentejano que estava no frigorífico desde o Verão. Bebi um copo quase de um gole. Depois enchi outro copo e bebi devagar. Fui até à janela e olhei lá para baixo. As mesas e as cadeiras de plástico da pastelaria, que nunca eram presas, começaram a voar. Algumas pessoas vinham a correr empurradas pelo vento. Havia chapéus-de-chuva a virarem-se ao contrário e varetas a espetarem-se na cara, no nariz, nos olhos das pessoas que arriscavam passar com aquele tempo. E eu pensava O que leva as pessoas à rua com um tempo destes?
Voltei para dentro e fui cozinhar uns cogumelos salteados com ovos mexidos.
Lavei os cogumelos e cortei-os em quartos. Coloquei-os numa tigela. Pus uma frigideira ao lume com um pouco de azeite e dois dentes de alho cortado muito aos bocadinhos. Juntei os cogumelos. Espalhei um pouco de sal grosso. Juntei um pouco do vinho branco do copo. Depois retirei a frigideira do lume e tirei os cogumelos da frigideira para uma tigela.
Parti cinco ovos grandes para outra tigela. Coloquei um pouco de sal grosso e pimenta preta. Mexi tudo um pouco e despejei para a frigideira onde tinha salteado os cogumelos e que tinha voltado a colocar ao lume. Depois misturei os cogumelos aos ovos mexidos. Retirei a frigideira do lume e despejei tudo na tigela.
Coloquei uma toalha na mesa da cozinha. Dois pratos. Um copo que enchi da garrafa de vinho branco e voltei também a encher o meu. Coloquei talheres. Dois guardanapos. A tigela com os cogumelos e os ovos mexidos. Peguei numa tábua de plástico e numa faca de cozinha e cortei umas fatias de pão caseiro do dia anterior.
E depois fui à sala chamá-la.
Quando entrou na cozinha, olhou para os ovos mexidos com cogumelos e as fatias de pão do dia anterior e disse Cheira tudo muito bem! Mas o que me estava mesmo a apetecer era uns queijinhos frescos.
Enquanto falava nos queijinhos frescos agarrou-se a mim, dengosa, e trincou-me a orelha de leve.
Lá fora, a tempestade Ana estava ao rubro. Os estores faziam um barulho ensurdecedor. A chuva fustigava os vidros das janelas.
Na mesa, o vinho branco aquecia e os ovos mexidos com cogumelos salteados arrefecia. E eu disse-lhe Está bem, eu vou ao supermercado.
Peguei no casaco, num chapéu-de-chuva e saí para os braços da Ana. Nunca mais voltei a casa.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/10]

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