À Espera que o Tempo Passe

É Sábado. Vésperas de Natal. Há uma espécie de histeria no ar. A cidade é inundada de pessoas. As lojas, de portas abertas, estão cheias de gente que mexe em tudo como se tivessem olhos nas pontas dos dedos. Ir ao Centro Comercial é suicídio e decidir estar uma hora numa fila de trânsito que não anda.
Os restaurantes estão cheios. Alguns já quase só funcionam por marcação como nas grandes metrópoles.
Eu também decidi sair de casa. Estou sem luz. Não paguei a conta a tempo e cortaram-na na Quinta-feira passada, à noite. Agora só posso ir pagar na Segunda-feira. Até lá estou às escuras. Sem televisão. Sem aquecedores. Sem água quente para o banho. Nem a comida posso fazer. Não sei se foi boa política ter tudo eléctrico em casa. Por isso, que é que faço aqui? Saí.
Fui até às rulotes. Vou muito às rulotes. Por vezes até fica mais caro que em alguns restaurantes da cidade, mas fica a impressão de que se poupa. Estar a comer em pé, ao frio, um bocado de pão com uma bifana, e acompanhar com uma mini, parece mesmo uma refeição triste e barata.
Não era o único. Nunca sou. Aliás, as três rulotes que estavam a funcionar estavam à pinha. Havia ali muita gente como eu. Uma bifana, frita ou grelhada, um hamburger, ou um cachorro-quente que mais não é que uma salsicha cozida com batata palha e uma série de molhos. Mas as pessoas gostam. É pena não haver batatas fritas ruffles da Matutano.
Saio da rulote de estômago composto e, antes de me ir enfiar na cama, passeio um pouco pela cidade. E vejo que ela fervilha de gente. Grupos de miúdos, de raparigas. Grupos de capa e batina. Namorados. Casais. Parezinhos. Gente que parece divertida e que se diverte. Gente que sorri. Que ri. Gente que se beija. Passeia de mãos dadas. Gente que conversa. Que discute. Gente que vive e que ama.
Passo por isso tudo e sinto-me emocionado. Tenho pena de não sentir o mesmo. Tenho pena que tudo isto me passe ao lado. Mas não poderia ser de outro modo.
Já em casa, vou até à varanda fumar um cigarro. Parece que amanhã chega a Ana. Um furacão feminino. Não tenho nada em casa para lhe oferecer. Acho que vou ficar deitado na cama o dia inteiro. Acho que não vou ter pachorra para a receber. Vou adormecer e esperar que surja a Segunda-feira para poder tomar um banho de água quente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/09]

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