Homens que Viciam o Espaço

Há personagens que consomem toda a narrativa, não porque sejam importantes, mas porque se fazem grandes. A minha mãe diria deles que têm mais olho que barriga. Mas a verdade é que ocupam todo o espaço, principalmente com o tamanho da sua arrogância.
Quando ele entrou, toda a gente percebeu. Ele falou alto. Dominou o espaço. Mostrou que mandava, que era chefe, dono, patrão. E quando se dirigiu a quem estava lá para o atender, não foi atendido, foi servido, como gosta.
Eu estava ao canto a beber uma cerveja. Na verdade, já ia na segunda. Mas isso não interessa a ninguém. Como toda a gente, também levantei os olhos para a personagem, mas depressa voltei ao que estava a fazer. Nada de importante, contudo. Lia A Bola, pronto. Que eu também me construo destas coisas.
Mas ele não me deixava concentrar na leitura superficial do jornal desportivo. Teimava em falar alto. Exigir atenção e deferência. E pedia coisas. Muitas coisas. Coisas difíceis. Complicadas. Caras. A personagem tem sempre dinheiro. Mesmo quando não o tem.
irritei-me com o barulho e o peso da sua presença. Despejei o copo de um golo e levantei-me para ir até lá fora.
Ao passar junto dele ouvi Experimente este! e a resposta ser um Também não dá!
Saí para a rua e fiquei por ali a fumar um cigarro.
Ele também acabou por sair. Olhou para mim e disse Dás-me um cigarro que se me acabaram os meus?
Eu estendi-lhe o maço e depois o isqueiro e vi-o acender, mandar uma baforadas e expelir o fumo antes de dizer, lá do alto, Obrigado, pá. Depois levantou os sacos e à laia de desculpa e disse É o Natal! e afastou-se.
E eu fiquei ali, a olhá-lo a ir-se embora ao longo do passeio, cheio de sacos na mão, a fumar o meu cigarro.
Depois voltei a entrar lá onde tinha estado. O espaço voltara a estar calmo e tranquilo. Pedi outra cerveja e voltei a tentar ler A Bola.
Gosto de estar naquele sítio. É silencioso. Calmo. Agradável. Mas às vezes o ar fica irrespirável. E comecei a pensar no que ele disse. No Natal. E voltei a não conseguir concentrar-me na leitura do jornal.
Há homens assim, mesmo depois de partirem, continuam a viciar o espaço.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/03]

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