Eu Sei que Sou Eu que Estou Mal

O Natal tomou conta da cidade. E descaracterizou-a.
O Natal é o pretexto. E eu percebo-o. A cidade é um conjunto de comerciantes.
Cruzo-a e não a reconheço. Cruzo uma feira. Uma gigantesca loja de bric-a-brac. Uma loja onde tudo se vende. Tudo se compra. Os sorrisos. A felicidade. A mentira.
Não consigo passar pelos sítios por onde passo normalmente. Os caminhos estão vedados. Passam atletas que correm pela cidade. Já o fazem diariamente no circuito da Polis, e todas as Quartas-feiras à noite com vários circuitos de vários quilómetros e várias velocidades de empenhamento, mas agora, também, pelo meio da cidade. E penso que me querem obrigar a correr. Mas eu não quero. Aviso que não quero correr. Estou bem a andar devagar, a cruzar, ao meu ritmo, a cidade que também é minha e que habito para além da fancaria natalícia.
Há cheiro de fritos no ar. São as farturas e os churros. No meio, lá perdida no meio, encontro a senhora das castanhas. Compro uma dúzia. Vou comendo pela cidade. Tenho frio. Arrefeceu muito estes últimos dias.
Quero entrar num café para beber algo mas está tudo cheio. As pessoas vêm atrás das luzes e das lantejoulas.
Sinto-me um bocado amargo com o que fazem à cidade. Mas sei que sou eu que estou mal. Não percebo este desejo desesperado por barulho, agitação, luzes, oferta, oferta, oferta, cheiros, gritos, cores, luzes e muitas cores e gente que vai de um sítio para outro e percorre todas as portas abertas, segue as luzes e os barulhos, os sons, as músicas, seguem-se uns aos outros, carregam sacos, saquinhos, saquetas, vão a mastigar coisas indistintas que carregam nas mãos, mais os sacos, os iPhones, iPads, iPods, os filhos, os sobrinhos, os carrinhos de bebé e os sacos e mais sacos, e o pacote das castanhas, mas esse sou eu a tentar esconder-me no meio deles, não querendo ser mais um, só a querer passar por onde não querem deixar-me passar por causa dos seus eventos e jogos e acontecimentos e regras e mais regras e alterações e transformações e o raio que os parta que transforma a cidade que é minha numa cidade que não é de ninguém e que está ela toda à venda.
Estou cansado.
Quero fechar-me em casa, debaixo dos cobertores e esperar que passe a febre do Natal. O Natal da família e dos brinquedos feitos pelas crianças do Bangladesh. O Natal do Pai que afinal é da Coca-Cola. O Natal dos jantares de grupo e de empresa e de escola e de amigos e conhecidos e de mais grupos que só se está bem no meio da confusão para ninguém ver que afinal estamos tristes, sozinhos, queremos chorar e não temos ninguém onde encostar a cabeça.
Finalmente chego a casa. Acabei com as castanhas. Vou à janela fumar um cigarro e vejo, lá em baixo, as pessoas a continuarem a passar cheias de sacos num eterno devir.
E sei que sou eu que estou mal.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/02]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s