Zé Pedro

Estava dentro do carro a passar-me com o pára-arranca no meio da cidade em véspera de fim-de-semana prolongado. Mas a meio da tarde? Onde vão já todos de rabo alçado?
Tinha o rádio ligado e, de repente, do nada, a notícia que me informava da morte do gajo. Porra, pá! gritei enquanto batia com força no volante. Foda-se!
Tinha acabado de saber da morte de Zé Pedro, o guitarrista dos Xutos & Pontapés. E desatei a chorar como uma Madalena. Nem sei bem porquê. Era só mais um gajo a morrer. Morrem uma data deles diariamente. Certo. Mas este era mesmo especial. Nem sei bem porquê. Ou sei. E digo que não para não parecer ridículo.
Este tipo representa um pouco a geração a que pertenci, embora mais velho que eu. Mas quando os Xutos apareceram, abriram umas portas à geração de onde eu venho.

Lembro-me de terem nascido. Lembro-me das primeiras notícias dos primeiros concertos. Lembro-me dos primeiros singles. Dos primeiros LP,s. Da grande travessia no deserto antes de chegarem a uma grande editora. Lembro-me da entrevista que lhes fiz, ao Zé Pedro e ao Tim, em Leiria, para um jornal local de curta duração, a Semana de Leiria. E da disponibilidade e simpatia para com um puto chato que não era jornalista mas que se armava. E lembro-me de terem sobrevivido a todas as épocas e géneros, e drogas e álcool. E de voltarem a encher os espaços depois de já serem has been. Havia quem não os esquecesse. E isso, muito por culpa deste gajo que agora partiu. Mais um.
E não conseguia parar de chorar. Porque sim. Porque me lembro do sorriso do Zé Pedro. Fosse na Rock Rendez-Vous ou mais tarde no Johnny Guitar, ou fosse num daqueles fantásticos concertos em Lisboa nos anos ’80 e ’90 onde se encontravam sempre as mesmas caras, e o que lembro dele é sempre aquele sorriso. E não era um sorriso idiota, parvo, arrogante. Era o sorriso de um gajo simples e simpático, mesmo. Um gajo que não sendo a cara dos Xutos & Pontapés, era o gajo em que logo se pensava.
Finalmente os carros começaram a circular. Tinha os olhos embaciados e conduzia com a atenção redobrada. Não queria ter um acidente em véspera de Natal.
Mas peguei no iPod e procurei. Com um olho na estrada e outro no iPod, com uma mão no volante e outra à procura, lá descobri e coloquei nas colunas do carro o Sémen:
Sémen, Sémen, Sémen
Semente dum corpo que sai
Do corpo da gente.
Velha disputa do sexo
Nunca é quem se espera
Terá isso nexo.
Será menino ou menina
Ao pai pouco importa
É mais um anexo…
Cheguei a casa. Parei o carro e deixei-me lá ficar a ouvir o resto da música. E depois outras. As mais antigas. E pensei que comecei a assistir ao início do meu fim. A partir de agora, era a doer. Houve uma época de entradas na universidade. Uma época de casamentos. Uma época de nascimento dos filhos. Para uns chegou a vez dos netos. Para outros, a morte. E o caminho não nos deixa parar.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/30]

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