Seis Euros

Quando saí de manhã não estava a chover. Cruzei a cidade a pé. A cidade não é grande e evito o pára-arranca de hora de ponta na única rua que cruza a cidade. Assim, a pé, faço exercício e vou olhando o desespero de alguns condutores como se estivessem numa grande metrópole.
O pior foi à hora do almoço. Fiquei de ir almoçar a casa e, já a caminho, começou a cair uma carga de água daquelas potentes, que criam inundações, arrasam culturas, mas enchem barragens.
Enfiei-me no primeiro café que encontrei. Não evitei contudo uma ligeira molha que tentei sacudir à entrada do café e para desagrado do homem que me olhava do lado de dentro do balcão.
Aproximei-me e sentei-me num dos bancos altos. Pedi um copo de branco e um rissol. A televisão estava a dar o noticiário e o meu olhar e atenção ficou por lá.
Aprendi que em Janeiro iria haver um aumento extraordinário das pensões, até quinhentos euros, de seis euros. Estava a bebericar um pouco do branco do copo quando explodi num riso tonto e espalhei o vinho que tinha na boca à minha frente, pelo balcão fora. Seis euros? Durante algum tempo não consegui parar de rir. Seis euros de aumento extraordinário nas pensões mais pequenas?
O homem do outro lado do balcão fez má cara à minha explosão e foi limpar o que eu tinha sujado.
Depois lá consegui beber um golo de vinho. E trinquei o rissol de camarão mas, azar dos azares, só apanhei massa. O recheio escorregou todo para a ponta do rissol.
Na televisão continuavam as notícias. Agora era sobre a Ilha de Man. Parece que não pertence à União Europeia, nem ao Reino Unido, embora a soberana seja a Rainha de Inglaterra. É um paraíso fiscal. E há mil e duzentos portugueses que depositaram lá mais de quatro mil milhões de euros. Não me ri. Voltei a trincar o rissol, mas achei-o muito seco. Seco e amargo. Só massa. Sem recheio. Bebi o resto do copo de vinho. Há muito dinheiro no mundo, pensei. E depois voltei a pensar nos seis euros e voltei a rir.
Senti o telefone a vibrar. Era ela. Devia querer saber onde andava. Mas já não me apetecia ir almoçar a casa. Não me apetecia vê-la. Não me apetecia ver ninguém. Larguei umas moedas no balcão e saí para a rua.
Lá fora ainda chovia, menos, mas ainda chovia e fui andando debaixo dos beirais para fugir à chuva. Até que cheguei à paragem dos autocarros. Entrei no primeiro que me levava até ao cinema. E fui ver um filme. Precisava urgentemente de um pouco de ficção. A realidade estava a deixar-me angustiado e triste. Mas, vá lá, pensei de novo nos seis euros e voltei a rir. Não estava tão triste assim. Ou se calhar estava. Já não sei. Mas precisava de estar sozinho. Fugir das pessoas. E desta vida miserável onde estava metido. E sem saber muito bem o que fazer.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/28]

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