O Pulsar da Cidade

Domingo. Num fim-de-semana de Black Friday, uma maneira estrangeira de fazer gastar dinheiro em pechinchas que não precisamos, não bastando a Sexta-feira, prolonga-se por Sábado e Domingo. E como estamos a caminho do Natal, há muita gente a aproveitar as pechinchas baratas.
Estive a trabalhar até ao final do dia.
Saí do trabalho e, antes de me ir enfiar em casa, dei um passeio pela cidade. Não estava muito frio. E soube-me bem andar pelas ruas, cruzar-me com gente sem ter de as cumprimentar, ver as luzes da noite e os enfeites de Natal e pensar que mesmo não gostando, iria sentir a falta se não as houvesse. Já aconteceu isso. Não haver iluminações. E eu sentir a falta delas. É estranho sentir a falta daquilo que não se gosta.
Sentei-me num banco de pedra. Estava frio, o banco, mas precisava de me sentar um bocado. Fiquei sentado frente a uma loja muito concorrida, de grandes montras muito luminosas e coloridas. Havia sempre muita gente a entrar e a sair. Entravam com muitos embrulhos, mas saiam com muitos mais.
Vi muitos carrinhos de bebé. Crianças pequenas com balões coloridos pelas mãos. Uma criança comia um gelado de um copo de plástico. Uma outra chorava e ia puxada pela que devia ser a sua mãe, que refilava e, de quando em vez lhe mandava um berro. Fui seguindo-os com o olhar até desaparecerem de vista.
Quando regressei com o meu olhar para a frente da loja, reparei que havia uma miúda pequenina a comer pipocas de um saco, mesmo à minha frente, e que aguardava a minha atenção. E ofereceu-me pipocas. E eu aceitei e retirei uma mão-cheia. Depois ela sorriu e fugiu a correr para ao pé de um casal adulto que também sorriu para mim em jeito de desculpa.
Na porta em frente, as pessoas continuavam a entrar e a sair. Sempre com sacos, muitos sacos. Havia um ambiente alegre e colorido. Risos e sorrisos. As mulheres tinham um ar leve. Os homens um ar pateta. Pareciam mesmo felizes.
Levantei-me e apontei o caminho de casa. Fui andando devagarinho, ouvindo o pulsar da cidade.
Passei por uma padaria aberta e comprei dois papo-secos.
Pensei que tinha uma lata de atum em casa. Migava um pouco de cebola e fazia duas sandes. E ainda tinha um restinho de uma garrafa de Borba tinto. Estava a ficar com fome e acelerei o passo.
Como as outras pessoas, eu também levava um saco pela mão. Um saco com dois papo-secos para o meu jantar.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/26]

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