Como Era Bonita a Minha Cidade

Acabei o trabalho, desliguei tudo, todas as máquinas e computadores e as luzes, tranquei as janelas e fechei a porta da rua nas minhas costas. Ainda não tinha colocado o primeiro pé na calçada do passeio quando ouvi a buzina. Era a buzina de um carro e percebi que era o dela. Levantei a cabeça e vi-o. Aproximei-me dele. Ela abriu a porta do pendura por dentro, esticando-se por cima do banco. Eu entrei.
Não dissemos olá. Nem eu nem ela. Não dissemos nada. O carro arrancou pela cidade fora e saiu dos seus limites. Subimos uma encosta. E depois ela parou o carro lá em cima, numa arriba sobre a cidade. Abri a boca de espanto. Nunca ali tinha estado. A cidade, vista dali, ganhou outro relevo e pensei Que bonita, a cidade. E depois pus-me à procura de razões para nunca ter estado ali, naquele sítio. E percebi como era bonita a minha cidade, e como me esquecia disso diariamente, quando a cruzava a pé e via, ao pé de mim, todo o pulsar de uma cidade sem ver o quanto ela era bonita e interessante, cheia de segredos que não procuro. Precisei de subir ali a cima para o perceber. Se calhar era da altura, da distância, do enquadramento. Se calhar da luz deste Outono que caminha para o Inverno. Parecia outra. Se calhar era isso, parecia outra.
E, de repente… Tenho fome! ouvi dizer. E acordei. Percebi que estava no carro com ela. Tinha-me esquecido. Tinha-a perdido completamente. A cidade tinha-me absorvido como ela já não conseguia absorver. E nesse momento percebi que já não valia a pena. Já não sentia nada. Tudo se tinha esfumado. Ela já não era importante. Deixara de ser importante. E eu disse Eu também.
Ela pôs o carro a trabalhar e arrancou. Voltámos à cidade. E ela levou-nos a uma rulote para comer uma bifana.
Eu abri a porta e saí. Ela também. Mas eu não esperei por ela. Fui-me embora. Ainda a ouvi chamar por mim duas ou três vezes. Mas não me virei para trás. Já não me interessava o que estava lá para trás. Já não queria saber do passado. Do que era ou do que poderia ter sido.
Misturei-me às outras pessoas que cruzavam a cidade a pé e resolvi ir comer uma sopa ali, naquele snack-bar onde as pessoas comem em pé, mas onde não conhecia ninguém e não tinha de cumprimentar nem falar com ninguém.
Ali podia comer uma sopa, em pé, mas descansado.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/29]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s