Beber Café e Olhar a Chuva a Cair Lá Fora

Tinha acabado de comer um resto de frango guisado com esparguete que tinha feito para o almoço. Um guisado com muita ervilha e cenoura em pedaços grandes, que gosto muito de cenoura nos guisados e assim, de uma refeição para a outra, ainda me sabe melhor.
Acompanhei com um resto de Adega Cooperativa de Portalegre que encontrei cá por casa, restos de um aniversário bem regado.
Já tinha lavado a louça à mão, com a água quente corrente, altura em que aproveito, sempre, para fazer o balanço da minha vida que, invariavelmente, tomba para um dos lados, mas nunca o lado que me interessa.
E já estava a fumar um cigarro à janela, quando a campainha tocou. Era ela. Desde que me devolvera a chave, que passava mais tempo cá em casa. Só que agora tocava à campainha. E passava muito tempo a tocar à campainha. Mais que o tempo que passou a abrir a porta com a chave que lhe tinha dado.
Deixei o cigarro a queimar à beira da janela e fui abrir a porta. E ela entrou.
Quando voltei à janela para agarrar o resto do cigarro, ele já lá não estava. Devia ter caído. Provavelmente para a varanda da vizinha de baixo. Amanhã teria que aturar mais um sermão acerca da varanda dela não ser o meu caixote do lixo. Uma chata de primeira. Mas bonita. Divorciada. Um bocado azeda.
Ela entrou na cozinha e foi fazer café com a velha cafeteira que a minha mãe me tinha dado quando saí de casa pela primeira vez para ir para a universidade. Desatarraxou a cafeteira a meio. Retirou o filtro. Encheu a parte de baixo com água da torneira. Colocou café no filtro e enfiou na parte de baixo e depois atarraxou as duas partes e pôs a cafeteira ao lume.
Entretanto eu acendi outro cigarro e fui fumando, deitando o fumo para a rua e vendo a chuva a cair lá fora.
Ela deu-me uma chávena de café. Sem açúcar. E ficamos os dois a beber o café e a olhar a chuva a cair lá fora. Não falámos.
Depois, largámos as chávenas no lava-loiça e sentámos-nos no sofá, frente à televisão, lado a lado. Eu fui fazendo zapping. E ela não dizia nada.
Por fim disse-lhe Vou deitar-me, e ela respondeu-me Eu também.
E seguiu-me para o quarto. Despimo-nos. Fomos os dois ao mesmo tempo à casa-de-banho lavar os dentes e urinar, e voltámos ao mesmo tempo para a cama.
Deitámos-nos lado a lado. A olhar para o tecto. A ver as sombras que as luzes do exterior formavam lá em cima. Por vezes riamos. Eu pensei no que é que poderia fazer para o almoço do dia seguinte. Ela não sei.
Depois devo ter adormecido, pois abri os olhos e era de manhã. Ela estava enroscada em mim. Também acordou. Espreguiçou-se. Saltou da cama, vestiu-se e saiu de casa. Eu fiquei ainda um pouco a esticar-me, a acordar e a pensar, mas não sei bem em quê. Mas aquela era a minha vida. E era assim.

[escrito directamente para o facebook em 2017/11/27]

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