Fora da Caixa, mas em Ambiente Controlado

e então era assim: génios claro, claro que sim, a escrever, a pensar, a dizer, a criar, a inventar, a jogar, a pular, a representar, a fazer qualquer coisa extraordinária que o mais comum dos mortais não consegue fazer daquela maneira, assim, como foi feita pelo génio, aquele que aprendemos a amar, mesmo que acabemos a odiar, mas que aprendemos primeiro a amar, por vezes nem tanto por aquilo que fez, por aquilo que conhecemos do que fez, mas por aquilo que alguém disse que fez e da sua importância e que a comunicação social elevou à potencia, às vezes até do mal, porque os génios tombam de um lado para o outro, bastando, para tal, exercitar o seu direito opinativo como qualquer um de nós, mas não o podendo fazer porque é génio e esse não se prende em articulações mundanas estúpidas que só interessam aos idiotas que não têm a genialidade da criação à porta de entrada, e então o génio não pode dizer de ninguém que é um metafísico da meia-foda, muito menos se o metafísico for o Milan Kundera no auge da sua glorificação graças a À Insustentável Leveza do Ser, mesmo que o aforismo parta da língua solta de António Lobo Antunes porque o génio tem de ser respeitoso e impoluto, domesticado, ou quanto muito, exercitar as suas verve irascível e maldisposta em casa alheia porque muito se gosta do escárnio, do maldizer e da asneira se não for em nossa casa, sobre a nossa pessoa e para os nossos ouvidos puros, pudicos e virgens, incapazes de semelhantes vilezas sobre os nossos semelhantes, a não ser que sejam do clube errado, do partido errado, do sexo errado, que prefiram a cor errada, ou nos tenham traído e colocado um belo e pouco recatado par de cornos, ou então glorificar essa maledicência desde que criada, construída e vivida em casa alheia porque o amor nunca é suficiente para aguentar tamanhos dislates de génio dentro de casa, dentro do quarto, dentro da cama, onde não se passa nada mais que a posição de missionário porque somos todos filhos da cristandade, o Natal está à porta e o Pai Natal só dá presentes a quem se portar bem, por isso quer-se dos génios que eles pensem fora da caixa sim, mas em ambiente controlado para não dizerem o que não devem como o Ricardo Araújo Pereira que acabou excomungado pela Fernanda Câncio por não ter dito nada do que ela leu, mas que ela leu e portanto ele escreveu e ele tem graça e liberdade desde que eu não seja o alvo, nem pense que o sou, porque mais importante que a falta de limites ao génio é o respeitinho que é uma coisa muito boa e bonitinha e que cabe debaixo da árvore de Natal durante o mês de Dezembro, ao lado dos presentes, caros e brilhantes que

[escrito para o Jornal de Leiria em 2017/11/23]

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