Foi Hoje, Ainda de Manhã

Hoje acordei cedo. Bastante cedo até. Era de noite quando me descobri bastante desperto na cama. Ainda me virei para o outro lado e tentei voltar a adormecer, mas a cabeça não parava com mil ideias e desejos e vontades e projectos…
Levantei-me. Tomei banho, vesti-me, fiz café e umas torradas e pendurei a roupa que tinha lavado ontem à noite. Parece que a partir de amanhã vai começar a chover. E eu não tenho máquina de secar, então, estou sempre à mercê do sol.
Depois de tudo feito, peguei na máquina fotográfica e saí de casa. Peguei no carro e abalei até São Pedro de Moel.
O dia já começava a clarear nas costas da praia quando lá cheguei. Custou-me passar pela mata ardida. Aquela mata onde namorei, fiz piqueniques com amigos, família… Aquela mata que tanto fotografei. Cheguei mesmo, um dia, a filmá-la…
Em São Pedro estava ainda tudo fechado. Parei o carro por cima das antigas piscinas, agora destruídas e ao abandono, e arranquei pelas arribas, para sul, para fotografar o mar, as rochas… O que a vista alcançar. Talvez um barco. Talvez um par de namorados nas dunas.
Estava a passar numa zona de rochas muito acidentadas, íngremes, em escarpas. O sol já estava alto. Lá em baixo, as ondas batiam com força nas rochas e explodiam em milhões de gotículas furiosas. E foi ao ver essas gotículas a espalharem-se por todo o lado, que deixei cair a máquina fotográfica. Ao esticar-me para tentar apanhar a máquina ainda no ar, escorreguei numa rocha e caí pela escarpa abaixo, e fiquei preso numa espécie de buraco na rocha, do qual não consigo sair. Nem para cima, nem para baixo.
E isso foi hoje, ainda de manhã.
Já é de noite. Já não consigo gritar mais. Estou afónico. São Pedro de Moel não tem muita gente lá a viver. E muito menos saem para sítios como este. Não são doidos, os habitantes de São Pedro de Moel. Já não tenho grandes esperanças que alguém me consiga encontrar. E já não tenho forças para gritar mais. Já experimentei todas as possibilidades de sair deste buraco. E não consegui. Tenho medo do que me espera. Tenho medo do que vou passar até atingir o fim que me espera. Tenho medo, mas não sei o que fazer. E acho que não há nada que possa fazer. E o medo já é pânico. E quero gritar e não consigo. E a única coisa que faço, para além de pensar na merda onde estou metido, é chorar. Não sei mais o que fazer senão chorar. Nem pensar consigo. Só chorar…

[escrito directamente no facebook em 2017/11/21]

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