Aos Velhos o Frio Chega de Véspera

Hoje consegui ir até ao rio. Não me atrevi a ir mais longe. Na televisão avisaram que vinha aí muita chuva. E se começasse a chover muito, a chuva apanhava-me no caminho. Não consigo andar muito mais depressa do que isto. Este andar lento, mas seguro, é o máximo que a bengala me permite.
Aos oitenta e cinco anos, e depois de todas as mazelas a que tenho sobrevivido, é um milagre que ainda consiga passear sozinho ao longo do rio.
Mas hoje bastou-me lá ir vê-lo. Fiquei por lá um bocado a ver a vida que gira lá à volta, mas não me atrevi a ir mais longe que isso.
Ainda vi uma rapariga a tirar fotografias a um rapaz que lia, ou fingia ler, um livro. Ainda vi um casal de namorados em arrufo que, depois de alguns berros e choro, acabou abraçado e aos beijos. Ainda vi mais uns corredores que nunca param de correr, vem sempre lá mais um, há sempre um, a correr ao longo do rio. Quem diria que havia assim tanta gente a gostar de correr?
Ainda vi uma velhota, de bengala, a passar por mim e a mandar-me um olhar daqueles! Era engraçada, ela. Deve ter sido muito bonita lá para trás, no tempo. Mas agora… De bengala… Velhota… Costas curvadas… Andar lento e pesado…
E, de repente, desatei a rir. Até parecia que eu era diferente. De bengala, velhote, de costas curvadas e andar lento e pesado, esse era eu. Era de mim que afinal estava a falar. Eu era isso tudo.
A velhota ouviu-me rir e ainda se virou para trás, devagar para não se desequilibrar, e sorriu para mim, mostrando satisfação pelo meu riso tão franco. Disse-lhe Boa-tarde, minha senhora!, que eu não sou deselegante.
Um rasgo de frio subiu pelas minhas costas acima e pensei que o dia estava a arrefecer. Não chovia, mas o frio da noite estava a chegar. Vinha de véspera para avisar os velhotes como eu. Ainda deitei um olhar à velhota que se afastava, e então, afastei-me eu também.
E pus-me a caminho para casa. Com um pouco de sorte ainda conseguiria apanhar a Rita Ferro Rodrigues e o João Baião naquele programa onde passam a vida a comer de boca aberta, esganados coitados, parece que passam fome, e dão dinheiro no fim do programa para quem ligou para lá durante a tarde. Pode ser que um dia me calhe a mim e me alivie o fim do mês.
Mas antes tenho de passar pela padaria que preciso de um pãozinho.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/24]

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