Aos Murros na Parede

Dei por mim ajoelhado, de cu para o ar, debaixo do lava-loiça, sem perceber nada do que estava a fazer, a tentar desentupir o cano.
Tinha avisado inúmeras vezes para não deitar restos de comida no lava-loiças. Pois era a mesma coisa que estar calado. Todos os dias, depois de comer, enfiava os pratos no lava-loiça e passava-os por água deixando os resto de comida a boiar numa água suja e gordurenta que não descia pelo ralo abaixo. E depois lá ia eu enfiar as mãos, retirar os restos que conseguia, tentar desentupir o ralo e lavar a louça. E isto repetia-se. Ciclicamente. Mas hoje, já nem o ralo consegui desentupir. Então, tive de me desenrascar e descobrir maneira de abrir caminho à água. Só que estava nervoso, chateado e com vontade de mandá-la à merda. Como muitas outras vezes. Mas acabava por nunca o fazer.
Houve um dia que o desespero foi tanto que acabei aos murros à parede. Pedi-lhe várias vezes que se calasse, mas não se calava e lá continuava na ladainha, cada vez mais alto, e a entrar cada vez mais fundo em mim, na minha cabeça, no meu cérebro, a perfurar como um berbequim, a aumentar o som, cada vez mais, até não haver mais som no mundo que aquele que estava a dar cabo de mim e da minha cabeça, e fiquei cego e surdo e mudo, e não via nada, e só ouvia aquela ladainha a sair da boca dela e já não consegui dizer mais nada, nem Cala-te! nem Pára! nem sequer um Chiu!, fui directo à parede em frente e disparei alguns murros na parede e logo ao primeiro me arrependi pois vi que ia ficar com as mãos em muito mau estado, eu não era um tipo violento, nunca fui, nunca andei ao murro com ninguém, não sei dar murros, mas fui incapaz de parar e lá continuei a esmurrar a parede até me cansar, libertar toda a carga pesada que tinha em mim, e conseguir respirar fundo e… Uff!…
Fiquei com as nozes dos dedos em sangue. As mãos incharam. Alguns dedos também. Doía-me tudo e muito. E andei assim durante alguns dias. Bastantes.
Desta vez não ia bater na parede. Mas sentia-a atrás de mim numa outra ladainha a explicar que não tinha sido ela a entupir a canalização e que eu estava a fazer tudo mal.
Comecei a ver tudo à roda. A sentir náuseas. Com vontade de vomitar. Levantei-me a custo, peguei num prato sujo de dentro do lava-loiça e mandei-o contra a parede. Produziu um estrondo e estilhaçou-se em milhares de pequenos pedaços. Mas teve o condão de trazer o silêncio à cozinha. Por breves segundos não havia ninguém ali, e não se ouvia uma mosca. Depois ela saiu e eu fiquei sozinho a olhar os pequenos pedaços de loiça que tinha de ir apanhar quando o tubo se abriu e começou a deitar água para fora, molhando tudo à minha volta.
Eu baixei os braços e rendi-me. Não tinha forças para mais.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/25]

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