A Minha Mãe e a Amiga Dela

Entrei no café e sentei-me numa mesa junto ao vidro da montra com boa vista para o exterior.
Dali via passar as pessoas na rua. Assim quase como se estivesse ao pé delas, mas sem estar.
A miúda, de bandeja na mão, aproximou-se de mim e desejou-me os bons-dias. Uma educação que já vai faltando. Mas a miúda era educada e simpática. E sim, também era gira. Pedi um croissant folhado simples, imaginando-me em Buenos Aires a comer uma medialuna con dolce de leche. Uma fantasia como outra qualquer que não custava nada a ninguém, e a mim só me custava exercitar a memória e satisfazer as papilas gustativas. Mas acabei mesmo por ficar pelo croissant folhado e um café.
A miúda foi tratar de mim e eu peguei no livro que levava e abri-o na marca.
Olhei lá para fora e vi uma velhota, de bengala, a chegar muito devagarinho e sentar-se no banco de pedra que está no pequeno largo. Colocou a mala no banco, mas junto a si, debaixo do braço.
Virei-me para o livro. Mas não consegui concentrar-me. A velhota requeria a minha atenção. E vi-a, de mãos apoiadas na bengala, a olhar as pessoas que passavam por ela. Os adolescentes. Os adolescentes de mãos dadas, passada rápida, conversa alta que chegava indistinta ao café onde eu estava e as suas brincadeiras. Faziam cócegas uns aos outros, riam alto, abanavam-se muito, e eu reparei no olhar deliciado da velhota a observá-los.
A miúda chegou com o meu café e o croissant folhado simples. Agradeci. Coloquei o livro de lado na mesa. Rasguei um bocado do croissant e comi-o.
Subitamente, a velhota levantou-se rápida, numa rapidez só dela, e agarrada e suportada pela bengala correu, dentro do seu possível, para o outro lado do pequeno largo. Lá ao fundo passava outra velhota, também ela de bengala e um saco de plástico do Pingo Doce. A primeira velhota chamava pela outra enquanto se aproximava. Até que a outra a ouviu. E viu-a. E parou. E acabaram por ficar frente-a-frente.
Rasguei outro pedaço de croissant e coloquei-o na boca. Pus um pouco de açúcar no café e mexi-o com uma colherzinha.
As duas velhotas ficaram em pé a conversar um pouco. E depois viraram para ali, para onde eu estava, e começaram a andar, enquanto continuavam a falar.
Bebi o café de um golo e acabei com o resto do croissant ao mesmo tempo que as velhotas passavam frente ao vidro do café. Olharam lá para dentro e uma delas reconheceu-me. Sorriu. E chamou-me com a cabeça. Apontou para o saco de plástico do Pingo Doce da amiga e percebi que precisava de ajuda. Engoli o resto do croissant, larguei algumas moedas na mesa e saí para as ir ajudar a carregar o saco de plástico.
Enquanto as cumprimentava e pegava no saco de plástico, senti o olhar de toda a gente do café na minha direcção. Normalmente fico incomodado por ser o centro das atenções. Mas ali não fiquei. O centro das atenções não era eu, mas a minha mãe e a amiga dela. E senti-me contente por ainda podermos partilhar alguns momentos.
Depois fui atrás delas as duas, devagarinho, devagarinho, carregando o saco de plástico e ser prestável. Ainda voltei o meu olhar para o vidro do café. E vi a miúda a olhar para mim a sorrir.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/22]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s