Uns Caixotes Cheios de Memórias

Não gosto de fazer mudanças.
Não tenho paciência para desarrumar, encaixotar, desencaixotar e voltar a arrumar. E este nem é o principal problema. O principal problema é quando tem de se levar toda a tralha de um sítio para outro.
Desde que saí de casa dos meus pais pela primeira vez, ainda adolescente, não tenho pousado muito tempo no mesmo sítio. E com o passar dos anos e a acumulação de tralha, as mudanças tornaram-se um martírio.
Desta vez é mais uma vez.
Abro os caixotes vazios no meio da sala e vou pegando nos livros. Mas o tempo passa e os caixotes não se enchem. Os livros teimam em ficar-me nas mãos, chamando-me a atenção para o que ainda não li, ou para o que li e merecia voltar a ser lido, ou, simplesmente, naquele momento, aquelas palavras, aquelas frases, aquelas ideias puxam-me lá para dentro e esqueço o que estou a fazer, o que devia estar a fazer.
E não gosto de ajuda neste encaixotar/desencaixotar. Este momento é íntimo e único. Único de cada vez que o faço, porque cada vez é uma vez concreta e específica e o que levo ali, naqueles caixotes, é meu, e só meu.
Houve uma vez que tendo tudo encaixotado, e sobrado dois caixotes, ela perguntou Posso utilizá-los? e respondi logo, ríspido, Claro que não! Estão cheios! Cheios de quê?, perguntou-me a rir, e eu respondi, já chateado, De memórias! São as minhas memórias que transporto ali, naqueles caixotes que tu achas que estão vazios. E ela saiu da sala zangada, julgando que eu estava a gozar com ela. Não estava.
O mesmo se passa quando tenho de voltar a arrumar tudo. Mas aí há como que um ar de regresso à escola e aos livros novos e ao cheio da novidade. Quando começo a arrumar, e mesmo arrumando tudo da mesma maneira mas em espaços e sítios diferentes, parece que estou a mexer em livros novos que estou pronto para abrir e descobrir. É chato quando descobrimos ter deixado algum livro para trás. E logo aquele. É sempre aquele que lá ficou.
E isto, é só com os livros.
Falta o resto.
Quando saio de casa pela última vez, largo as chaves no cinzeiro à entrada, e deixo a porta fechar-se nas minhas costas. Mas levo muitos caixotes. Com as minhas coisas e as minhas memórias. E essas, ninguém mas tira.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/16]

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