Uma Cidade Grande, Igual às Outras

Estou sozinho no quarto de hotel.
Estou cá em cima. No alto. Não sei em que andar estou, mas ao olhar lá para baixo, só vejo pontinhos pretos a deslocarem-se em várias direcções.
Estou numa cidade grande. Já não lembro do nome. Elas são todas iguais. Ou quase.
Os quartos de hotel são todos iguais. Mesmo.
As janelas já não abrem com medo dos suicidas. Já não se pode fumar e se por acaso acendemos um cigarro por descuido e dispara o alarme de fumo e se ligam os aspersores, somos nós que temos de pagar os estragos. Nem fumar nem suicidar. Esta sociedade está asséptica.
Estou sozinho numa cidade que não conheço, embora seja igual a todas as outras, e sem conhecidos, embora também não goste muito de estar com pessoas. O que me resta?
Pensei ligar para um serviço de acompanhantes. E depois? Para conversar? Para ter sexo? Para fingir que não estou sozinho? Para fingir que tenho companhia, que sou querido de alguém? Íntimo de alguém?
Estou sozinho, num quarto de hotel, numa cidade grande, e pergunto porque continuo a fazer isto. Isto que faço. E a acumular mais dinheiro do que alguma vez poderei gastar. É este o meu sentido? É isto o que me move?
É que não sei o que me move. O que quero. Para que combato. Mas estou cansado desta solidão dourada, em que todos me tratam com deferência e algum medo.
Como fugir a tudo isto? Como pular de uma janela que não abre?

[escrito directamente no facebook em 2017/11/18]

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