Quero Ir-me Embora

Agarrei-lhe na mão. Nem senti a rigidez nem o frio.
Naquele toque passaram anos de história e muitas estórias. Muitas memórias que teria para mais tarde me embriagar. Mas não agora. Nem aqui.
Agora teria de ser o companheiro forte. O Homem. O super-homem. Aquele que aguenta tudo porque é isso que dele se espera. Podia verter uma ou outra lágrima, que as senhoras acham adequado e ajuda a criar uma moldura sentimental que atrai o sexo feminino.
Mas não estava ali para seguir normas, catalogações ou fazer o que se espera.
Ao agarrar naquela mão inerte, e no vazio que ela transmitiu, não consegui travar o soluço do choro que saiu assim, em jorro, forte e sonoro, como é normal sair a quem perdeu a alma. Fiquei petrificado. As mãos a agarrar a mão e os pés colados ao chão. Alguém levantou-se e foi lá buscar-me. Sentou-me num dos bancos da capela, mas não aguentei aquele cheiro. Aquele cheiro a transpiração de toda aquela gente ali fechada, em dia de chuva e calor. E os olhares presos em mim. À espera do que iria fazer a seguir.
Levantei-me e saí para a rua. Estava a chover bastante. Fiquei logo encharcado. Mas continuei ali fora, e comecei a andar sem destino, só a andar, estrada fora, a deixar as lágrimas confundirem-se com as gotas da chuva. E maldizer todos os responsáveis pela minha perca. Com Deus à cabeça. Esse Deus que nos permite a miséria, a tristeza, a derrota e a morte. Gritei. Uma e outra vez. E mais outra. Tentava aliviar o peito com a berraria suavizada pelo barulho da chuva a cair no asfalto. Mas nada surtia efeito.
Entrei num snack-bar. Senti o olhar desaprovador de quem aguardava a minha chegada ao balcão, ao molhar o chão, o banco onde me sentei e o pedaço de balcão onde coloquei os braços. E pedi Um whiskey, se faz favor. E enquanto me servia, o olhar informava A casa-de-banho é já ali, o que ignorei. Estava farto de ordens. E bebi o primeiro whiskey. E pedi outro. E eles foram-se sucedendo, dia fora…
E eu já estava seco e caído na casa-de-banho, tombado sobre a sanita. Sujo de vomitado. De cabeça à roda. Levantei-me a custo. Saí da casa-de-banho, larguei várias notas no balcão e sai para a rua. Continuava a chover e eu precisava de me molhar outra vez.
Caminhava ao longo do estreito passeio, mesmo junto à estrada. Caminhava com alguma dificuldade em manter-me direito. Os carros passavam muito próximo. Rentes. Por vezes apitavam. E eu continuava a deixar misturar a água da chuva com as lágrimas que não paravam de cair.
E dizia, num mantra, Quero ir-me embora! Quero ir-me embora!

[escrito directamente no facebook em 2017/11/20]

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