Os Ramones São do Caralho!

Eu tinha 18 anos.
Ela tinha 16 anos, quase a fazer 17.
Estávamos na década de ’80 e conheci-a numa festa onde não queria ir. E quando a conheci, detestei-a, gajinha nariz empinado armada em mete-nojo. Mas isso foi mesmo no início depois… Bem, depois…
Era Sexta-feira. Noite. Havia festa em casa de uns amigos. Mas não estava com pachorra. A aproximação do Natal deixava-me sempre melancólico, o estado normal da minha adolescência.
Mas lá resolvi ir. Tinha umas Nike novas, de lona, brancas com o símbolo a azul, e queria experimentá-las.
Quando lá cheguei fui logo directo à cozinha buscar uma cerveja. A música, muito Pop of the Tops estava entre Duran Duran e Spandau Ballet. Até lhes achava alguma piada, e gostava das poupas, mas eram luminosas demais. De garrafa na mão fui ao gira-discos e coloquei Clash. Lost in the Supermarket, exactamente como me estava a sentir ali, sem nenhum dos meus amigos mais próximos. Claro que conhecia toda a gente, ou quase, mas eram uns chatos do pior. Por isso Clash vinha bem a propósito para falar da minha condição de perdido e irritá-los com os baixos mais cadentes.
Fui até à varanda fumar um cigarro quando alguém parou o disco dos Clash e colocou Sex Pistols. God Save the Queen. Que coisa mais pirosa. Fui até lá saber o que se passava.
Um pivete de cabelos cor-de-rosa estava a dançar em frente ao gira-discos. Coloquei-lhe a mão no ombro, virei-a para mim e perguntei-lhe, com um gesto da cara, que merda era aquela. Apontou-me o dedo do meio e virou-me as costas. Depois virou-se e gritou alto, para se sobrepor à música, Os Clash são uns meninos merdosos! e voltou a virar-me as costas.
Miúda irritante. Chata. Detestei-a logo ali. E tive vontade de lhe cortar aquele cabelo nojento. Cor-de-rosa.
Mas depois, no fim da música, alguém colocou Ramones. The KKK Take My Baby Away. E saltei para o meio da sala, a dançar à minha maneira post-punk, com gestos dramáticos com os braços e as pernas, como já tinha visto fazer ao Pete Murphy e ao David Bowie, mas a olhar arrependido para os meus ténis brancos que não faziam ali nenhum sentido.
E foi então que a vi a vir dançar para ao pé de mim. E gritou-me Os Ramones são do caralho. Sim, são do caralho, concordei. E fiquei ali a dançar com ela, a olhar os belos cabelos cor-de-rosa, a t-shirt dos Birthday Party em que ainda não tinha reparado, as calças rotas e com nomes de bandas escritas a caneta…
Quando a música acabou, alguém pôs o Baby, I Love You dos Ramones. Os pares vieram dançar. Eu fiquei ali parado, feito parvo embevecido a olhar para ela. Ela sorriu-me e aproximou-se. Agarramos-nos. Ficámos mesmo colados um ao outro, e começamos a dançar. E eu cheirei-a toda. Os cabelos, o pescoço, as orelhas, a boca, os lábios… E beijámos-nos. Não sei qual era a duração da música dos Ramones, mas no resto da noite, nunca mais nos largámos. E aquele idílio durou umas semanas. Uma eternidade para toda a vida.
Há uns anos voltei a vê-la. Cabelo com madeixas e apanhado, assim com uns ganchos. Forte. Com três crianças de volta dela, a entrarem para uma Renault Espace. Nem sabia que ainda existiam. Vestia um anorak e umas calças absolutamente normais.
Nesse dia quando cheguei a casa, fui ouvir o Baby, I Love You. Mas terminei a noite ao som de Lost in the Supermarket.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/17]

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