Um… Dois… Três…

Estava a olhar a rua lá em baixo. O frio da rua e o calor da casa embaciava um pouco os vidros e as luzes dos carros brilhavam abstractas espalhando-se pela janela. Fumava um cigarro, mas parecia não dar por ele.
E contava um… dois… três…
E estava na praia. Na Zambujeira do Mar. Deitado numa toalha sobre a areia e olhava, lá à frente, uma rapariga a mergulhar na água. Depois ela vinha, trazia um bocado de água fria nas mãos em concha e despejava a água sobre mim, mesmo comigo a pedir-lhe Não! Não! Está fria!… Depois deitava-se molhada sobre mim e beijava-me. Eu rebolava sobre ela, uma, duas, três vezes, e ela ficava cheia de areia colada ao corpo molhado. Pareces um croquete, dizia-lhe…
Puxava uma passa forte do cigarro e depois expelia-o ali para a sala onde estava a olhar a rua. As janelas fechadas acumulavam o fumo à minha volta. O gato foi-se embora, farto do fumo, do cheiro e da minha ausência.
E contava um… dois… três…
E estava numa estrada marginal ao mar, a conduzir um carro cheio. Cheio de gente e de barulho de vozes de gente alegre e feliz e de cheiros diferentes, cheiro de perfume, dela, e de adolescentes transpirados e com medo do banho. Cantávamos uma canção. Cantavam uma canção. Eles, os adolescentes, estavam chegados ao banco da frente e cantavam com ela. Riam. Brincavam. E eu sorria àquela alegria…
Pensei que era necessário um pouco de chuva para limpar a cidade daqueles cheiros a gasolina que intoxicam as ruas. Abri a janela e o fumo saiu lá para fora numa enorme nuvem. O gato voltou para ao pé de mim e começou a roçar-se na minha perna. Dei mais uma passa no cigarro…
E contava um… dois… três…
E estava no meio de uma grande confusão. Num cruzamento. Despertei caído no chão, no meio do cruzamento. Um camião estava espetado numa árvore e a carga, dezenas e dezenas de caixas de cerveja estavam espalhadas pelo chão, garrafas partidas, vidros espalhados por todo o lado, e eu descobri que tinha alguns na cara, que arranquei, e o cheiro nauseabundo da cerveja espalhada por toda a estrada e depois, depois vi o meu carro virado ao contrário com a chapa toda metida para dentro. Corri para lá e vi que ela e eles estavam presos. Não se mexiam mesmo que quisessem. Estavam entalados pela chapa. Tentei puxar a chapa, mas só consegui cortar um dedo e ficar a jorrar sangue que tentei parar com um lenço. Mais tarde chegaram os bombeiros, mas para eles já era tarde, muito tarde. E para mim, demasiado…
Acabo o cigarro e abro os vidros. Mando a beata pela janela fora. Dois braços agarram-me por trás e abraçam-me. O gato continua a roçar-se na minha perna. Uns lábios beijam-me o pescoço. Sinto o perfume. Agrada-me. Viro-me e ouço Estás a chorar?, Não, foi uma fagulha do cigarro que me entrou para os olhos, e beijo-a com paixão, mesmo sem querer esquecer as memórias.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/15]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s