As Mensagens

Acordei com o sinal sonoro da chegada da primeira mensagem.
Abri os olhos a custo e espreitei o telemóvel. Não me interessava a mensagem. Virei-me para o outro lado e tentei voltar a adormecer.
Após as cinco mensagens seguintes percebi que não ia conseguir voltar a pregar olho.
Levantei-me da cama. Desliguei o telemóvel. E fui até à cozinha.
Acendi um cigarro e fiquei a olhar pela janela, para a rua escura, deserta e silenciosa. Porque raio lhe dava para me mandar tantas mensagens a estas horas? Não conseguia dormir? Era agora que se punha a pensar na vida e nas merdas que fazia?
Apaguei o cigarro na torneira do lava-loiça e fui até à sala. Liguei a televisão. E fiz zapping. Não consegui parar em nenhum canal. Nada de interessante para quem é acordado às três da madrugada. É que podia mandar as mensagens de manhã. Ou durante a tarde. Até mesmo à noitinha. Mas não! Às três da madrugada. E não dá nada de jeito na televisão. Documentários fofinhos, séries da treta, a Loja em Casa, enfim… Uma desgraça nunca vem só.
Desliguei a televisão e voltei para a cama. Liguei o telemóvel que de manhã preciso de despertador. E mal o liguei, dispararam os avisos sonoros da chegada de mensagens. Muitas mensagens. Muitos avisos sonoros. Fiquei irritado. Muito irritado. E lancei o telemóvel contra a parede em frente. Não se despedaçou, mas quebrou o ecrã e desligou-se. E não consegui voltar a liga-lo. Então é que fiquei realmente zangado, ao pensar no que teria de gastar para comprar outro telemóvel do qual logo lhe descubro o destino: a parede em frente.
A minha vida anda a ficar muito repetitiva e previsível.
Deitei-me. Dei voltas e voltas. Rebolei. A cama desfez-se. Não. Não consegui voltar a dormir. Voltei à cozinha. A garrafa de vinho estava vazia. Regressei ao quarto, vesti umas calças, umas sapatilhas, uma camisola, peguei num casaco e na carteira ao sair de casa e fui ao Feio.
Pedi uma bifana e uma mini. Ainda a bifana não tinha chegado, já tinha despachado quatro minis. Quando a bifana chegou, pequei em mais duas minis e sentei-me no murete ao lado. E passei a ir buscar as minis aos pares. Deixei de as contar. Perdi a noção das horas.
Lembro-me de ver passar um carro da polícia. Lembro-me de um deles vir falar comigo e me mandar para casa. Lembro-me de obedecer.
Cheguei a casa, mas não me lembro como.
Acordei na cama, despido, já o sol ia alto. Ao meu lado, uma bandeja com um rico pequeno-almoço: ovos mexidos, sumo de laranja natural, torradas, manteiga, fiambre e uma chávena de café. E comecei a comer.
De repente, ouvi, vindo da porta de entrada do quarto Tens o telemóvel desligado.
E ali estava ela. Não uma mensagem. Não um telefonema. Ela mesmo. Mais calma. Como se ontem não tivesse existido. E o pequeno-almoço estava uma delícia.
Pensei que, depois, tinha de ir comprar outro telemóvel.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/13]

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