A Neura

Os americanos desceram à cidade. A equipa norte-americana de soccer veio jogar futebol com a equipa B da selecção portuguesa. O Cristiano Ronaldo não foi convocado para este jogo amigável porque ia receber, na maternidade, a chegada da Alana Martina.
Não fui ao estádio. Mas peguei numas cervejas, nuns tremoços e numas pevides e sentei-me no sofá, em casa, disposto a ver o jogo, sem grande paixão, diga-se.
E as coisas iam decorrendo assim, sem grande história, e sem grande vontade, quando os norte-americanos marcaram um golo e Portugal desatou a perder em casa.
Olhei à minha volta. Estava sozinho. Sozinho a ver um jogo de futebol. Um jogo de futebol da selecção nacional. Nem era o Benfica. Nenhuma alegria. Ninguém com quem discutir, comentar, gritar, partilhar uma cerveja…
Desliguei a televisão.
A neura tomava conta de mim. Tentava combatê-la com umas cervejas, mas não estava a dar resultado.
Levantei-me.
Voltei a sentar-me.
Levantei-me de novo e fui até à cozinha fumar um cigarro. Abri a janela e deixei entrar o ar frio da noite de Outono. No fim, mandei a beata pela janela fora.
Peguei no casaco e saí de casa. Decidi ir até ao estádio. Fui andando a pé. Não é longe.
No caminho parei numas rulotes e bebi umas minis. Comi uma maminha grelhada numa carcaça.
Quando cheguei ao estádio, o jogo ainda decorria.
Quando finalmente terminou, e as pessoas começaram a sair, misturei-me com elas. Queria fazer parte de um grupo. Queria ser um número que contasse nas estatísticas. Queria ser relevante. E gritava Por-tu-gal!-Por-tu-gal! para quem quisesse ouvir e duvidasse da minha encenação.
Uma equipa da televisão correu na minha direcção. Queriam saber a minha opinião sobre o jogo. O que eu tinha sentido ao saber que o jogo também era solidário para com as vítimas dos incêndios.
Eu não sabia o resultado. Nem sabia que o jogo era solidário com quem quer que fosse, e respondi Vim aqui para ver o Cristiano Ronaldo e o Rui Patrício e senti-me defraudado. E depois lembrei-me e disse Beijinhos para a Alana Martina, que é bem-vinda a este mundo. E sorri para a câmara que me estava a gravar pensando que tinha dito algo de muito relevante. Depois, a equipa de televisão foi a correr para outro lado, falar com outras pessoas. E eu pensei cá para mim As rulotes são já ali. E que bem me sabia uma cervejinha.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/14]

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