Explodi

Fiquei cego de dor.
As mãos fecharam-se e as unhas cravaram-se na carne. A cabeça estava prestes a explodir, e antes que ela explodisse, explodi eu. Peguei no prato com um resto de bife grelhado, arroz branco frito e um ovo estrelado que estava na mesa à minha frente e mandei-o na direcção dela. Ela desviou a cabeça um pouco para o lado e o prato raspou-lhe na cara e foi estatelar-se na parede em frente, espalhando comida por toda a cozinha.
Ela calou-se. Finalmente calou-se e olhou-me admirada. Não esperava esta reacção. Não esperava nenhuma reacção. Ela berrava. Eu ouvia e calava. Ela refilava comigo, diminuía-me, insultava-me, e eu baixava o olhar para não alongar a discussão. Mas hoje ceguei. Ceguei de dor. E ripostei.
Levantei-me da mesa da cozinha e sai de casa batendo a porta da rua com força. Todo o prédio deve ter ouvido, mas não me importei. Os vizinhos que se fodessem. Estava cansado. Farto. E explodi.
Cheguei à rua e senti frio. Finalmente a porra do Outono resolveu chegar. E eu na rua, já de noite, de manga curta e cheio de frio.
Acendi um cigarro e fui a fumar até um café. Entrei e pedi uma aguardente. Batia o dente. Mas acabei por aquecer um bocado. A aguardente ajudou.
O telemóvel começou a vibrar no bolso das calças. Mas nem fui ver quem era. Não queria falar com ninguém. Não queria ver ninguém. Naquele momento só me apetecia andar à pancada com alguém. Mas não sou um tipo violento. Nem sei como bater em quem quer que seja. O mais certo era levar uma carga de porrada e ficar por aí caído, algures.
Não era a primeira discussão. Aliás, nos últimos tempos, elas tinham-se multiplicado. Havia uma saturação de parte a parte. Falta de paciência. Nervosismo. Parvoíce. E cada um de nós, com a certeza da sua razão.
Sabia que quando voltasse para casa, acabaríamos por fazer as pazes. Era sempre assim. Mas já não tinha vontade. Tinha chegado ao fim de mim mesmo. Acabara.
Saí do café e rumei, a pé, até ao Ibis. Pedi um quarto. Enfiei-me no duche e deixei-me ali ficar muito tempo, debaixo da água quente que me aquecia. Sabia muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/07]

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