Encontrar Pessoas e Perdê-las

Telefonei-lhe e convidei-a para jantar. E como nunca estou satisfeito com os problemas que arranjo, convidei-a para jantar em minha casa.
Há duas semanas despedi a senhora que vinha cá, uma vez por semana, dar um jeito à casa. Tendo eu também sido despedido, não a podia manter.
E eu fui despedido porque… Na verdade nem sei bem. Reestruturação do sector, foi o termo utilizado para me porem a andar. Não refilei. Não discuti. Não disse nada. Nunca gostei de discutir trabalho, salário, recolocação. Aceito as coisas como vêm. E nunca tive jeito para discuti-las.
Então, sem salário, também não o podia pagar à senhora que me vinha limpar a casa. E eu não sou grande doméstico. E, para variar, o aspirador continuava avariado. Já nem sei há quando tempo isto se mantém assim. A casa estava cheia de pó, quer dizer, cotão, mesmo, e o lava-loiça atulhado de pratos e talheres já com comida seca e tão entranhada que achava que ia ter de ficar de molho durante algum tempo para amolecer e ser possível lavar.
Então, com a vinda dela, e antes de pensar o que é que iria cozinhar para a impressionar, tinha de limpar a casa. E meti mãos à obra. Peguei numa vassoura e comecei a varrer o chão do corredor, da cozinha, do quarto, os tapetes, a juntar o cotão, a retirar o lixo dos cantinhos, os pelos da barba e os cabelos da casa-de-banho, os restos de comida do ralo do lava-loiça, a fruta podre e cheia de mosquitos de uma espécie de fruteira…
E nessa altura atravessou-se um ataque de asma provocado pelo pó que a vassoura levantou e comecei a ter muitas dificuldades em respirar, e só tive tempo de telefonar para o 112 antes de me sentir sufocar e desmaiar…

Acordei num quarto de hospital. Tinha uma máscara a dar-me oxigénio. Sentia os pulmões a encherem e a esvaziarem obrigando o meu corpo a acompanhar os movimentos de inspirar e expirar.
Fiquei durante muito tempo deitado na cama a olhar para uma televisão pequenina, ainda de cinescópio, pendurada alto na parede em frente, mas desligada. Não sei o que via lá, naquele ecrã.
Mais tarde uma enfermeira veio dizer-me que ela estava lá fora e me queria ver. E eu recusei. Não podia ser visto assim, menorizado, deitado numa cama de hospital, com problemas respiratórios provocados pelo pó da casa que tentei tirar à vassourada. Não, não podia, não queria vê-la. Tinha vergonha. Sentia-me diminuído.

Mais tarde, quando tive alta e ia a sair, soube que ela tinha sido atropelada por uma ambulância ali à saída do hospital e que tinha falecido ainda no local.
Ironia do destino, nunca mais a iria ver.
Tínhamos sido colegas de escola numa outra vida. Reencontrámos-nos numa noite de Sábado de homenagem aos anos oitenta no Xanax, uma discoteca que entretanto a polícia fechou, e para onde se dirigiam todos os divorciados, separados, solitários da noite na cidade, ou gente que precisava somente de umas horas longe dos filhos. Agora que a discoteca fechou, por onde andará esta gente?

[escrito directamente no facebook em 2017/11/10]

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